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Relato do workshop de Martí Peran - “Curar e criticar: novos modos da crítica de arte” [ECA-USP e MAP-BH abril/2007] o

Apresentado por Martí Peran como “uma aproximação ao exercício da crítica de arte no contexto das novas práticas contemporâneas”, o workshop “Curar e criticar: Novos modos da crítica de arte” consistiu em 3 narrativas distintas: a primeira teórica, formada por especulações acerca dos limites e da ontologia da crítica de arte; em seguida, a apresentação de projetos curatoriais como “Arquitecturas para el acontecimiento” (EACC, Castellón, 2002) “Stand by. Listos para actuar” (Laboratorio Alameda, Mexico D.F., 2003), “Mira como se mueven. 4 ideas sobre movilidad” (Fundación Telefónica, Madrid, 2005) e “Ciudades Ocasionales. Post-it city y otras formas de temporalidad” (CCCB 2007-2008); por fim, um pequeno exercício prático de cura coletiva de um projeto editorial. Este texto relata as idéias colocadas pelo ministrante da oficina e reúne apontadores para alguns dos projetos apresentados.

Definindo como ponto de partida a problematização das idéias ortodoxas de crítica e curadoria, da autoridade do artista, da passividade do espectador e da autonomia da obra de arte, Martí Peran apresentou uma alternativa ao esquema linear tradicional “autor-obra-espectador” no qual a função da crítica seria a mediação entre a produção artística e o público, representando a experiência estética contemporânea como esferas que interseccionam-se, “modos de vida” que sobrepõe-se em alguns pontos criando um significado comum, mas mantendo, ao mesmo tempo, áreas exclusivas. Entendida, assim, como a construção de significados no interior dos processo de produção cultural na esfera pública, a experiência estética não demandaria mediação, pois o antigo espectador, agora “usuário/co-autor”, passaria a ser um construtor autônomo de sentido. Coloca-se em questão, portanto, a profissionalização da crítica e do curador e defende-se, pelo contrário, a sua “hibridação dentro de uma cultura crítica geral”.

Parece que a reconfiguração atual do sistema de produção, circulação e recepção das obras de arte coloca em xeque o papel do crítico e do curador como profissionais de agenciamento de público para as instituições artísticas e abre uma nova perspectiva para a ação cultural diante do déficit de realidade da experiência contemporânea causado pela “inflação de ficções” e pela midiatização das relações sociais. Nesta, a crítica abandona gradativamente a obra de arte e converte-se, ela mesma, em prática estética, ao infiltrar-se nas dinâmicas socio-culturais existentes. Para exemplificar o que chamou de “abadono da obra”, ele usou a imagem das ondas formadas na água quando uma pedra é atirada. A pedra, que representaria a obra, desaparece e ficamos atentos à propagação das ondas. Nesse sentido, a função da crítica e da curadoria seria, portanto, tanto lançar as obras no espaço público quanto “tematizar” seus efeitos.

Reconfigura-se também a relação entre atividade crítica e esfera institucional. O abandono da obra direciona as atenções para as “exfiltrações” institucionais no tecido social e conferem à critica não mais o papel de mediação e tradução das obras ao público, mas de construção de “tematizações” acerca de dinâmicas socio-culturais existentes. Isso implica no “regresso do sujeito à experiência” e no questionamento do papel das instituições como gestoras dos sentidos deduzidos a partir desta. Segundo Peran, a resposta da cultura para essa “urgência de realidade” contemporânea é evidenciada pela “multiplicação de estratégias por parte da arte contemporânea para reencontrar-se com a realidade em oposição à qualquer tradição autônoma”, pela emergência de uma “arte preocupada em documentar os limites da realidade, em inserir-se nas fraturas do corpo social e tentar mecanismos de construção ocasional de experiências reais”. São alguns exemplos desse reencontro da arte com a vida: 1. as cartografias e registros de dinâmicas existentes em projetos curados pelo próprio Martí Peran, como “Mira como se mueven” e “Ciudades Ocasionales”; 2. a construção de plataformas para que “a realidade tome a palavra”, como o portal zexe.net idealizado por Antoni Abad; 3. as práticas artísticas reunidas sob o rótulo de estética relacional, voltadas à construção de “acontecimentos”.

Deve-se assinalar aqui a importância do conceito de acontecimento na concepção de uma “cultura crítica espetacular”. As práticas artísticas ditas “relacionais”, dedicadas à produção de acontecimentos em contextos específicos, apropriam-se de modelos sociabilidade existentes e tratam de traduzi-los para o espaço institucional. Um dos projetos apresentados pelo ministrante, intitulado “Cerâmica Juice”, realizado por Rirkrit Tiravanija e Josep M. Martín, na exposição “Arquiteturas para o acontecimento”, seria um exemplo dessa tradução de uma dinâmica existente no espaço social para a esfera institucional. Neste, os artistas utilizam laranjas de cerâmica, símbolos da produção de capital real naquela localidade, a província de Castellón, na produção de um trabalho que requer a participação dos usuários, convertendo, assim, o valor de troca das mercadorias em valor de uso.

Contesta-se, no entanto, a legitimidade dessas práticas estéticas, entendidas como uma nova forma de “realismo”, por converterem o princípio de subverção em atividades normatizadas, consumíveis pelo público especializado dos museus. Nas palavras de Martí Peran, “o único espaço real possível deveria identificar-se com o espaço cotidiano, aquele em que toda subjetividade estaría submetida a uma diferença crescente que impediria qualquer tentativa representativa” e, portanto, “a enorme dúvida que se dirige às práticas comprometidas com esse reencontro com a realidade surge de sua inconsciente hipocrisia ao tentar resolver-se dentro do espaço institucional sem notar que isso implicaria em uma perversa substituição da subjetividade política pela produtividade estética”. Dito em outras palavras, ao intervir na realidade e capturar dinâmicas existentes, a arte corre o risco de transformar a potência de criação em força produtiva.

Em face da espetacularização da cultura crítica e dos perigos de uma produção artística como construção de realidade, assinala Peran a necessidade de “novas modalidades de ficcionalização onde a realidade viva volte a aparecer mais como uma aventura do que como uma reivindicação”.


por Vinicius Spricigo

Referências:
PERAN, Martí. Presente continuo. Producción artística y construcción de realidad. (un apéndice). Catalunha: Eumo Editorial, 2006.