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Museu Afro-Brasil - Eixo central: territórios e públicos

Por Isis Gasparini – Painel com Priscila Arantes (Paço das Artes), Lílian Amaral (Plataforma Paranapiacaba. Memória e Experimentação), Monica Nador (JAMAC), mediação de Pablo Tallavera (Fundação Bienal de São Paulo).

Relato por Isis Gasparini

Coordenação de Beto Shwafaty

Não basta hoje a um museu ser o depositário de obras e artefatos, é preciso discutir aquilo que ultrapassa seu espaço físico. Tornou-se essencial repensar suas ações, atribuindo especial atenção aos mecanismos que proporcionam maior acesso às exposições e que as aproximam de um público mais amplo e diversificado. Além disso, muitos museus têm discutido estratégias que expandem sua atuação para fora do espaço institucional, indo além de sua missão tradicional de realizar exposições.

As mesas e painéis realizados no segundo dia do 7EPM, no Museu Afro-Brasil, foram marcadas por discussões sobre a aproximação museológica com comunidades por meio da ampliação de suas ações artístico-educativas. Em alguns casos apresentados, as ações são propostas pelas próprias instituições, em outros, por proponentes independentes que se articulam com os museus. Esses projetos são sempre atravessados por questões mais amplas que exploram quais são (e podem ser) os públicos de um museu.

Na primeira mesa do dia, a convidada Priscila Arantes definiu o Paço das Artes como “um espaço contemporâneo por excelência, que faz o exercício de pensar os novos territórios e cartografias”. Ainda que não seja um museu no sentido estrito do termo, o Paço é uma instituição preocupada em debater o que é uma instituição museológica, um acervo de arte e qual o seu papel. Ela acredita ser uma vocação das instituições públicas entender a especificidade dos territórios em que se encontram.

Foi a partir do desafio de repensar as ações institucionais em diálogo com o público extra-muros que se propôs, em 2013, o projeto Paço Comunidade para fomentar um diálogo com seu entorno. A iniciativa atua no trânsito entre o espaço museológico e o espaço da comunidade, sobretudo com os moradores do bairro São Remo, que jamais haviam entrado no museu, apesar de estarem muito próximos do mesmo, do outro lado dos muros que cercam a Universidade de São Paulo.

Essa iniciativa, ainda em andamento, consiste em trabalhar com a arte contemporânea em propostas que ora deslocam as pessoas para atividades realizadas no Paço, ora levam artistas e o núcleo educativo para a comunidade. Na edição de 2013, o projeto convidou o artista Anderson Rei que realizou no local uma oficina de pintura e estêncil. A segunda, contou com Alberto Tembo que desenvolveu um conjunto de jogos junto a comunidade.

A terceira edição, recentemente finalizada, teve a colaboração da artista Monica Nador, também presente na mesa deste painel, e foi realizada em parceria com o JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), projeto criado pela artista em 2003, na zona sul da cidade, que tornou-se uma OSCIP em 2005 e que permanece ainda em atividade. Ao longo dos seis meses, o projeto se concentrou nas representações das identidades dos participantes, trabalhadas por meio da experimentações plásticas em oficinas de estêncil e tecido, que resultaram em peças de vestuário.

A exposição realizada no Paço se configurou como uma festa de encerramento do projeto, e contou com a participação da comunidade, e atribuiu igual importância entre os produtos (as roupas) e os processos (desenho, confecção, estamparia). Segundo a artista, seu desejo é de que “a gente consiga fazer arte, que a gente consiga sobreviver apesar do mercado, porque a arte não é só fazer um objeto de arte.”

A partir desta experiência podemos perceber que a instituição de arte, ao avançar na direção de outros espaços públicos, passa a lidar com produções que trazem formas e materialidades distintas dos objetos abrigados por um acervo convencional, dando maior ênfase aos processos (jogos, produção e uso de vestuário, festa ...).

Priscila Arantes pontuou as dificuldades de uma iniciativa que amplia a atuação do museu, uma vez que deve ser realizada junto a uma programação já consolidada, como a Temporada de Projetos (destinada a jovens artistas) e a Residência Artística e Curatorial (para artistas em meio de carreira) que ocupam um tempo e um espaço significativos da estrutura disponível na instituição. Ainda assim, ela destacou a necessidade do projeto Paço Comunidade, bem como seus resultados positivos no que se refere à aproximação com o público.

Na mesma mesa, tivemos a apresentação do projeto R.U.A.: Realidade Urbana Aumentada, realizado por Lílian Amaral. O projeto surge da necessidade de uma plataforma artística de trabalho que tem a rua como lugar de encontro (espaço ao qual artistas e curadores tem dado maior atenção, desde a década de 1980). Essa iniciativa configura-se como uma forma de comunicação urbana que cria uma espécie de museu efêmero. Ao ativar a atenção do público por meio da arte, a cidade deixa de ser um espaço utilitário e de deslocamento para se tornar um lugar de construção de sentidos.

O projeto R.U.A assume que a cidade é fonte de experiências e de memórias. E considera vital oferecer condições para que as pessoas agenciem com maior consciência relações com seus entornos, sobretudo em centros marcados por mudanças constantes e, portanto, pela impermanência dos referenciais que permitem tais experiências e memórias.  Segundo Lilian Amaral, essa é uma atuação que a própria sociedade cobra do museu.

Projetos dessa natureza permitem ainda às instituições pensarem como se inserem em um determinado território. Realidade Urbana Aumentada começou no Bom Retiro, paralelamente à uma ação de tombamentos realizados pelo IPHAN nesse bairro. Mas é levado para dentro da UNESP, quando o Instituto de Artes desloca seu campus, depois de cinquenta anos, do Ipiranga para a Barra Funda. A mudança do antigo convento, com uma arquitetura bastante voltada para seu interior, para um novo edifício com fachadas de vidro, agora mais aberto à paisagem exterior, foi o ponto de partida para pensar a falta de aderência da UNESP no bairro.

Projetos como Paço Comunidade e R.U.A perturbam uma ordem imposta pela tradição do museu e da galeria como espaço idealizado, que visa isolar a obra de referências exteriores para afirmar sua autonomia. Tais projetos respondem de certo modo à crítica feita por Brian O’Doherty, que desconstrói a suposta neutralidade do que chama de cubo branco.

Como diz o autor, “a obra é isolada de tudo que possa prejudicar sua apreciação (...). Um pouco de santidade da igreja, de formalidade do tribunal, de mística do laboratório de experimentos junta-se a um projeto chique para produzir uma câmara estética única. (...) O mundo exterior não deve entrar, de modo que as janelas são geralmente lacradas. As paredes são pintadas de branco. O teto torna-se a fonte de luz[1]. Enquanto os museus se empenham hoje em ligar a arte com a experiência e a memória que o público carrega de sua vivência cotidiana, para essa tradição criticada por O’Doherty não existe o tempo. Essa eternidade dá à galeria uma condição de limbo; é preciso já ter morrido para estar lá[2]. Opondo-se a isso, os projetos apresentados neste painel tomam o museu como um dispositivo que se abre para o exterior e que deve assumir um papel mais dinâmico, afirmando-se cada vez mais como produtor de conhecimento, um lugar de produção, mais do que de guarda ou de exibição de objetos.

Podemos reconhecer em outras experiências atuais as preocupações que foram debatidas nesse painel. O projeto Esto no es un museo. Artefactos móviles al acecho, com curadoria de Martí Peran, reuniu numa exposição – que acaba de ser encerrada no Centro Cultural São Paulo – uma série de propostas de museus que repensam sua tradição. As diferentes iniciativas apresentadas têm em comum o desejo de aproximação com o público numa estratégia que cria, muitas vezes, exposições “nômades”, pequenos museus a “céu aberto” como forma de criar um acesso mais direto à arte.

Isto não é um museu de arte[3] é também o título de um artigo do pesquisador americano Douglas Crimp, em que aborda a obra de Marcel Broodthaers. O autor esteve no Brasil, em maio deste ano, para o evento Before Pictures: Encontro com Douglas Crimp, organizado por Mônica Nador, Sylvia Furegatti (artista visual e professora da Unicamp) e Thais Rivitti (curadora e diretora do espaço independente Ateliê397).

No livro que abriga esse ensaio, Sobre as ruínas do museu[4], Crimp coloca em discussão o papel desses espaços na arte contemporânea e o quanto participam da legitimação e da construção de sentidos das obras, quando as exibem em seus espaços.

Dessa forma, o que vemos é o espaço das exposições extrapolar os âmbitos do museu , como seu lugar privilegiado, em direção a outras esferas públicas. Não basta fazer das ações que o museu realiza na comunidade uma forma de trazer o público para dentro da instituição. Os projetos discutidos parecem conter um desejo mais efetivo de desinstitucionalização da arte, isto é, de fazer com que as experiências produzidas pelo museu continuem pertencendo às pessoas, onde quer que elas estejam.


[1] O’DOHERTY, Brian. No interior do cubo branco: a ideologia do espaço da arte. São Paulo: Martins Fontes, 2002. (p. 4-5).

[2] Ibid. p. 5

[3] CRIMP, Douglas. Isto Não é um Museu de Arte. In: Sobre as Ruínas do Museu. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

[4] Sobre as ruínas do museu, publicado como coletânea em 1993, reúne ensaios do autor que já haviam integrado revistas e catálogos de exposições, acrescidos nesse momento de um conjunto de imagens produzidas pela artista Louise Lawler, a fim demonstrar que a obra de arte já pode conter, em si mesma, camadas de reflexão que a inserem no universo das teorias criticas. Crimp parte dos signos que determinam a ideia de autonomia da arte, e que a alienam do que está fora de seu sistema. Esse isolamento é uma construção dada pelas próprias dinâmicas internas do museu, mas que é sistematicamente questionada pela presença crescente de obras mais heterogênas, como aquelas produzidas pela fotografia ou por outras técnicas menos relacionadas às linguagens artísticas tradicionais.