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Encontro com os artistas – Antonio Manuel e Fernando Lemos

Portugal Portugueses: trajetórias, obras e processos

por Beto Shwafaty


A segunda mesa de conversas da mostra Portugal Portugueses: trajetórias, obras e processos contou com a participação de Fernando Lemos e Antonio Manuel, ambos portugueses que imigraram para o Brasil em diferentes momentos. No caso de Lemos, sua forte posição contra a ditadura de Salazar é citada como um dos motivos que o trouxera ao Brasil. Já Antonio Manuel imigra ao Brasil ainda criança, sofrendo um forte impacto pelas diferenças culturais e sociais do novo país, que iriam se refletir posteriormente em sua atitude como artista.

Do mesmo modo que ocorreu em outras mesas, as mesmas perguntas norteadoras foram colocadas aos artistas: Quais são os desafios e caminhos que se colocam agora para suas práticas, como esses veem a arte portuguesa no cenário internacional e quais as possíveis relações com o Brasil. Ainda que posam ser pertinentes, essas questões tornam-se por vezes genéricas ou muito amplas, fato que dificulta em certa medida direcionar as discussões para as especificidades de cada produção e personalidade artística. Nesse sentido, grande parte das falas assumiram um tom de depoimento.

Fernando Lemos

Fernando inicia frisando que não falará dele, mas sim de ‘nós’ – que estamos cada vez mais parecidos, pela natureza violenta com que a globalização se impõem a todos. Ele diz ser um artista por acaso, e aponta que tal situação é importante para ele pois é uma características que definem o fenômeno artístico em muitos casos – a surpresa, o desconhecido e o milagre. Porém, argumenta Lemos, tais situações são também ilusórias, são ‘algo que não existe’ uma vez que o acaso (e suas facetas) é algo inerentemente incontrolável e que se resolve amiúde de outras decisões conscientes. Acaso é uma das maiores potências para a arte.

Aliado ao surrealismo das décadas de 19040/50 em Portugal, Lemos aponta que as  preocupações do movimento eram de certa maneira, buscar um mergulho no universo dos sonhos, sendo esse um campo onde tudo se revela. A ‘des-ocultação’ torna-se ali, uma forma de teste e hipótese a ser perseguida naquilo que se produz (seja pintura, fotografia, textos e outros meios). De maneira também pertinente, cita Lemos, o pesadelo é outro campo de referência, pois nos mostra a realidade daquilo que somos e não o que pensamos que somos. O pesadelo aflora os medos de ver o que não se quer ver. Sonho e pesadelo tornam-se facetas desse processo de ‘des-ocultação’; e a tarefa da arte passa a ser uma busca por materializar o invisível, de tronar transparente e claro aquilo que esta oculto.

Fernando discorre ainda sobre experimentações iniciais plásticas, no campo da fotografia e do desenho, relativos a esse período surrealista. Seu interesse debruçava-se em ações que pudessem ocultar e revelar visualmente elementos do inconsciente. Segundo o artista, essa pode ser vista como uma metáfora que também leva artistas a utilizar um palimpsesto, para explorar o que esta oculto ao nosso redor. Outro aspecto de seu interesse refere-se a escrita automática, em que o acaso fornece as direções ao texto. A fusão entre textos, desenhos e outras linguagens tornam-se os eixos com os quais  Lemos desenvolveria sua obra naquele período, ganhando dimensões arquitetônicas, em desenhos que transitavam entre a transparência e a ‘des-ocultação', demonstrando assim seu forte interesse pelo ‘avesso’ das coisas. Ele ainda trata da relação que temos com o olhar, utilizando em um certo momento uma bela metáfora: sempre que você olhar uma flor e a achar bonita, pense que ela também te olha, é essa a única forma de existência possível, ou seja, através do dialogo. Ver para aprender a ver-se, essa é uma das funções primordiais da arte para o artista.

Lemos finaliza sua fala apontando seu grande interesse pela fotografia, como um meio que poderia auxiliar a descobrir qual seria ‘a cara do português’ e a buscar ‘qual seria a nossa cara’. Ele afirma que as artes plásticas não conseguiram dar tal caracterização com a mesma potência que a musica, a literatura e a poesia portuguesa. E o mesmo vale para o Brasil, segundo ele, pois ao contrário da música, ainda não se definiu um traço definitivo, uma identidade reconhecível para a visualidade. Ao final ele tece considerações sobre a pouca importância que se deve dar às características nacionais, e consequentemente às identidades, como se essas devessem ser definidoras de algo, ou fatores de qualidade. O que passa a ser importante, então, não é o reconhecimento de uma língua franca, mas sim dos diferentes diálogos entre as linguagens. essas posição denota uma interessante postura em prol da diversidade e não de uma diluição ou homogeneização que hoje são muitas vezes impostas por diversas dinâmicas globais.

Antonio Manuel

Em suas colocações iniciais, Antonio Manuel aponta para sua intrínseca relação com a arte, seu interesse na ideia utópica de mudar o mundo que a arte carrega, algo como uma ‘luta’ e uma não-representação. Ele frisa que seu foco é algo que atravessa a ideia de atuação.

A arte seria uma forma de vida, uma atividade criativa que se manifesta em diversos âmbitos. Manuel cita que desde jovem foi confrontando-se com a sociedade agressiva brasileira com instrumentos diversos – ou com linguagens como Lemos fala. Para Manuel, a linguagem é a verdadeira força da arte, a possibilidade e liberdade de invenção e criação de linguagens. Nesse sentido, é importante atentar para a exploração de novos suportes, que se colocam como desafios. Manuel também frisa uma certa característica coletiva, apontando que no Brasil, teve que encarar o contexto local junto a amigos como Oiticia, Ligya Pape, e Clarke – companheiros de linguagem e de luta. Essa convivência e interlocução propiciou a ele trabalhar com uma utopia: a de romper fronteiras e ao mesmo tempo podendo ser qualquer um, sem necessitar de enquadrar-se em estereótipos (citando, como Lemos, a nipo-brasileira Tomie Othake como uma das maiores pintoras brasileiras).
Sua fala leva a considerar que a questão central não reside em determinar uma nacionalidade, mas sim criar linguagens, canais de forças e comunicação do próprio trabalho, que se originem de sua ousadia. Esse é o grade desafio: não ser representação apenas, mas algo no mundo, algo vivo e atuante. Algo que possa, se possível, modificar e melhorar aspetos do e no mundo. Assim, a política torna-se algo sempre presente em sua obra, aliada a poética. Ele cita rapidamente Ítalo Calvino, pensando em como obter menos violência num mundo cada vez mais agressivo.

Para Manuel, a arte é uma das únicas coisas que ainda pode ser considerada como expressão sincera e direta da transformação de uma sociedade – pode soar utópico, mas é sua crença e o que o mantém vivo e trabalhando. Há, obviamente um grande rigor com o trabalho, ele deve primeiramente comunicar ao artista…mesmo em situações precárias ou de repressão (ele cita como exemplo Jean Genet que, quando preso, continuava a escrever em pedaços ou sobras de papel). A arte torna-se, assim, escape e forma de resistência.  Ele finaliza lembrando de Mario Pedrosa – figura de extrema importância para a cultura brasileira e internacional  e com quem conviveu. Pedrosa falava ‘da alegria que o trabalho de criação incarnava, como a vida’. E falava ainda que ‘o artista é, nesse sentido, uma espécie de bicho da seda, que trabalha incansavelmente, generosamente e de graça’.

Após algumas conspirações tecidas pela plateia, e de duas falas apaixonadas como também românticas, Manuel coloca que não se trata de reconhecer uma arte alemã, portuguesa ou o que seja. A força de ver artistas de e em outros contextos tem se tornado muito forte e desde já alguns anos a arte portuguesa tem sido reconhecida e muito respeitada – assim como na literatura. Esses encontros, entre diferentes atores do sistema da arte, são importantes pois criam interlocuções que permitem um crescimento cultural, sem perder características próprias.

A semente, fala Manuel, esta no Atlântico: nessa travessia que metaforicamente pode ser vista como uma grande fronteira, como um território em si mesmo, que é vasto e que é ao mesmo tempo instável, desafiador e comum.