Seminário Arquitetura - Debate Final

Debate final do seminário. Relato de Daniel Hora.

Diálogo possível

(por Daniel Hora)

O tratamento do espaço pela arte e a arquitetura e a viabilidade de atuação conjunta entre estas duas áreas de criação dominaram o debate final e o encerramento do Seminário Arquitetura da 27ª Bienal de São Paulo. A discussão foi iniciada pelo organizador da conferência e um dos co-curadores da Bienal deste ano, Adriano Pedrosa, que retomou um tema abordado pela manhã com a professora Beatriz Colomina, da Universidade de Princeton. O crítico pediu a opinião do arquiteto e escritor palestrante Guilherme Wisnik sobre um aparente desnível de interesses, em que os artistas plásticos nacionais se revelam bem mais atentos e abertos aos recursos de linguagem dos arquitetos do que vice-versa. Os exemplos citados foram os artistas Mauro Restiffe, Rubens Mano, Iran do Espírito Santo, Marepe, Adriana Varejão, Renata Lucas e Marcelo Cidade - os dois últimos já estão confirmados para a 27ª Bienal e até meados de abril expunham em duas galerias de São Paulo.

O comentário de Pedrosa coincidiu com a percepção de Wisnik, que acrescentou à lista de artistas abertos aos conceitos e à interferência arquitetônica em sua produção o paulistano Nuno Ramos, cuja mostra individual mais recente encerrava sua temporada no Instituto Tomie Ohtake no mesmo fim de semana em que ocorreu o Seminário Arquitetura. Em contrapartida, Wisnik mencionou um peculiar caso estrangeiro de interação, desta vez impulsionada por dois arquitetos suíços que fundaram em 1978 o escritório Herzog & de Meuron. A dupla cita com freqüência as propostas do alemão Joseph Beuys (1921-1986), pioneiro das instalações, com quem executou alguns dos vários projetos em colaboração com artistas. "Eles trouxeram para a arquitetura uma série de elementos da materialidade, como a exploração tátil e cromática", explicou o conferencista.

Para complementar sua questão, Pedrosa ponderou que comportamentos semelhantes ao do escritório Herzog & de Meuron eram mais comuns, inclusive na prática, nos anos 50 e 60 e foram desaparecendo ao longo das últimas décadas. Para Wisnik, a idéia do crítico Mario Pedrosa (1900-1981) de uma "capital das artes" em Brasília serve para comprovar a validade da aproximação teórica entre a criação arquitetônica e a plástica, apesar do controverso uso decorativo do trabalho dos artistas pelos arquitetos brasileiros. "(As obras dos concretistas) Franz Weissmann e Amílcar de Castro poderiam ser mais interessantes em Brasília do que os painéis de Portinari", avaliou Wisnik.

Política e formalismo

Do planejamento modernista do Planalto Central a mesa-redonda passou ao tema das construções fragmentadas, de estilo híbrido e feitas sem um projeto de ordenação do conjunto encontradas em algumas regiões de países em desenvolvimento. Foi então a vez de Joana Baraúna, funcionária da Pinacoteca, perguntar se o descaso social das instituições governamentais não estaria por trás da informalidade urbanística registrada em Caracas e em cidades dos Bálcãs Ocidentais, citados pela palestrante Marjetica Potrc. A artista e arquiteta da Eslovênia, que atualmente realiza projeto de residência no Acre dentro do contexto da 27ª Bienal, confessou entretanto estar otimista ante o dinamismo de cidadãos anônimos, especialmente de países da ex-Iugoslávia, que fazem suas casas de modo independente das ações estatais. Para ela, a atuação paralela desses agentes tem se mostrado fecunda e bem-sucedida.

Essa cultura de espontaneidade se mostra extremamente distinta em seus resultados da leveza de Oscar Niemeyer. A produção do arquiteto carioca foi o ponto inicial da intervenção do curador e diretor do Fórum Permanente, Martin Grossmann, que sublinhou o intercurso entre sua arquitetura e o paisagismo de Burle Marx como um acontecimento singular no modernismo no Brasil e no mundo. "Se o Niemeyer tivesse exata consciência dessa relação, creio que ele não permitiria", julgou Grossmann. Suas observações incluíram, por fim, um registro para a análise crítica e estética de Marjetica a respeito das influências econômicas na arte e uma aposta na impossibilidade da arquitetura se desvincular completamente da questão formal.

Wisnik retomou então sua diferenciação do conceito de formalismo na arte e na arquitetura e ressaltou que, se o minimalismo havia conseguido pôr de lado o caráter determinante da forma sobre a arte, o mesmo não poderia sequer se insinuar na arquitetura, devido a suas características inerentes. No caso do Brasil, o regime militar resultou ainda em um bloqueio à assimilação de tratamentos inovadores do espaço sugeridos pelo tropicalismo e por artistas como Ligia Clark e Hélio Oticica, como a implosão do suporte e a incorporação da cidade nas obras. Na opinião de Wisnik, a ítalo-brasileira criadora do edifício do Masp, Lina Bo Bardi, seria um exemplo isolado de alguém que seguiu conectado ao "centro nervoso do Brasil pós-Brasília". Para completar, o escritor recordou que o duro embate entre Niemeyer e o artista suíço Max Bill, inspirador do concretismo brasileiro, já havia minado as chances de integração entre arquitetura e arte abstrata.

Construtividade

A curadora geral Lisete Lagnado destacou a importância da idéia de construtividade. Fez alusão à presença desse conceito no guia teórico elaborado por Hélio Oiticica para a mostra Nova Objetividade, realizada no MAM carioca em 1967 - na mesma época em que atacava os museus e falava de "entropia" no sistema artístico o norte-americano Robert Smithson (1938-1973), um dos nomes mais representativos da land art. "Não é possível pensar em entropia em um país como o Brasil, onde não há instituições fortes", avaliou Lisete, admitindo sua intenção de recuperar o caráter construtivo da arte e da arquitetura, contrário aos fatores decorativos gerados pelo excesso de formalismo.

A contribuição da curadora ao debate continuou com uma censura aos edifícios pensados sem que se levasse em conta o contexto em que se inserem e que tipo de atividades ou elementos abrigam. Em particular, Lisete citou o caso de centros culturais e museus como o MAC de Niterói, criado por Niemeyer, e a nova sede da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, projeto do português Álvaro Siza que está atualmente em construção e foi vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2002. "Embora não o conheça em detalhes, acho que no mínimo foi desenhado sem que o arquiteto conhecesse a produção do artista", opinou.

Em sua conclusão, Lisete queixou-se da ausência do uso da palavra urbanismo, que corresponde diretamente ao tema Como Viver Junto da 27ª Bienal. "Quando penso em Matta-Clark, Dan Graham ou Oiticica, penso ao mesmo tempo em arquitetura e em urbanismo", observou. A respeito dessa análise, Adriano Pedrosa e Guilherme Wisnik ponderaram que a palestra sobre os impactos do conflito israelense-palestino na arquitetura, apresentada por Eyal Weizman no primeiro dia do seminário, lhes parecia totalmente focada em urbanismo, embora o professor não houvesse usado explicitamente essa palavra.

Linguagens integradas

A alternância dos aspectos de autoria individual e de anotação crítica visível nos projetos de Marjetica Potrc foi alvo de uma indagação de Pedrosa sobre as eventuais distinções entre a criação propriamente dita e as fotografias e desenhos resultantes de pesquisas urbanísticas, que são emoldurados e circulam como obras. A artista e arquiteta defendeu a mistura de diferentes pontos de vista, argumentando que a arte está em constante mutação e é aquilo que se rotula com tal. "Adoro meus desenhos e os entendo como livros de ilustrações. Comecei a produzi-los quando estava em Caracas. Queria dar um toque pessoal a minha reflexão sobre a cidade", esclareceu.

A união de linguagens foi também o tema de Roberta Saraiva, que perguntou se as idéias relacionadas ao espaço não haviam migrado da arquitetura para a arte brasileira na década de 40. A integrante do colegiado diretivo do Museu Lasar Segall apontou também dois casos de discurso visual interdisciplinar. Primeiro, falou de alguns trabalhos em escultura do arquiteto suíço-brasileiro Jacob Ruchti (1917-1974), cujo interesse pelo construtivismo foi assunto de um artigo que publicou na revista Clima. Depois, lembrou a produção de Alexander Calder (1898-1976), o escultor norte-americano célebre por seus móbiles e que chegou a visitar e a conhecer a arquitetura do Brasil.

Wisnik enfatizou que, na verdade, o conceito de espaço na arte está sempre presente e elogiou a recordação do exemplo de Calder. Embora não pudesse comentar as esculturas de Ruchti, ressaltou sua participação no conjunto de arquitetos de São Paulo dos anos 40 e 50, que estiveram ligados ao projeto construtivo nacional, mencionado antes por Lisette Lagnado. "(Foi) um momento cosmopolita, relacionado com a fundação do Masp e da Escola de Design (Esdi)", avaliou o conferencista.

O encerramento do debate se deu em tom de bom humor e expectativa. O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Miguel Pereira se declarou angustiado, mas "em um bom sentido". Afirmou apostar no futuro do diálogo entre artistas e arquitetos, baseado em um compromisso com as raízes culturais e a construtividade. "As equipes de Oscar (Niemeyer) sempre foram interdisciplinares até na amizade. Será que nas conversas cotidianas que geraram o modernismo brasileiro não se discutiam os problemas espaciais da arquitetura, da escultura ou dos grandes murais?", refletiu Pereira, concluindo que o Palácio da Cultura Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, constitui modelo de projeto integrado e urbanístico.

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