Um relato sem controle

relato da palestra de Walter Riedweg, por Graziela Kunsch

Throw

stills do vídeo Throw, Dias & Riedweg, 2004


Walter Riedweg conta que quando era professor às vezes entrava na sala gritando. Tem vontade de fazer isso ali. Na parede ao lado, uma pessoa cruza uma praça em Helsinque, Finlândia, e atira um objeto em nossa direção (1). Os projetos de Walter em colaboração com Mauricio Dias implicam o outro. “Nos interessamos por aquilo que não somos”.


Conflito permanente
Documentário e ficção, negociações com as instituições, “um artista constituído por dois”. Walter & Mauricio afirmou que querem viver o conflito, sem anulá-lo.


Açúcar
“Isso começa logo depois de meu corpo acabar”. Um dos projetos apresentados por Walter, Sugar Seekers (2004), foi feito com jovens refugiados, não sobre jovens refugiados (2). Em conversas com estes jovens, os artistas coletaram uma porção de palavras, em diferentes línguas, que “demarcaram um território da imigração”. No espaço expositivo, o espectador toca em uma dessas palavras (em uma tela sensível ao toque, ou touchscreen) e ativa um dos vídeos feitos em colaboração com os jovens (existem aproximadamente 68 caminhos diferentes). Segundo Walter, são depoimentos da trajetória da viagem de cada jovem, do momento da fuga, de memória. Para estimular esta memória, os artistas pediam que os jovens fechassem seus olhos e experimentassem alguns cheiros (um cheiro diferente por vez, a cada depoimento), ou tocassem alguns objetos, ou escutassem um som e perguntavam aos jovens frases como “que horas são?” (3). “Queríamos atingir o tempo interior do refugiado”, explicou Walter.


Interior - exterior
Walter – O que você está fazendo aqui?
Jovem de Marseille – Estou procurando Paris.
Walter – Você está em Paris.
Jovem – Não, você não entende. Paris é aqui (aponta para dentro da sua cabeça). Paris é em todo lugar.
Walter – Esses são os territórios que estamos investigando. Nos interessa o território do público, mas também muito o do privado. O território entre eu e o outro é o desconhecido território do desejo e do medo, do mundo a descobrir. Talvez por isso nos interessemos igualmente pelo documentário e pela ficção.


Arte dialógica
A característica principal do trabalho de Dias & Riedweg é o envolvimento do outro na concepção e execução de cada projeto; “fazer que o outro deixe de ser a periferia dos nossos olhos”.  As falas que antecederam a apresentação de Walter também se preocuparam em incluir o outro, porém de um jeito diferente. Enquanto Dias & Riedweg trabalham em colaboração com esse outro, em um exercício ao mesmo tempo de escuta e de proposição, a galeria A gentil carioca foi valorizada por sua localização (4) e o projeto do artista Humberto Vélez, The fight, foi apresentado como “inclusão social” da comunidade do bairro onde está localizado o prédio da Tate Modern. Mas será que a localização do espaço físico garante o encontro com o outro? Será que a transposição do campeonato de boxe para dentro do museu efetiva de fato uma relação da comunidade com a arte, da arte com a comunidade?

Estas perguntas não apareceram no debate. Mas Walter Riedweg pediu o microfone para dizer que “hoje em dia as instituições de arte precisam ter uma política local, de boa vizinhança, e pedem para os artistas fazerem esse trabalho. Nós não queremos fazer isso. Queremos viver esse conflito com a própria instituição. Não queremos ajudar os participantes do nosso processo, queremos trabalhar junto com eles”.


Notas:

(1) Throw. Dias & Riedweg, 2004
O museu de arte contemporânea Kiasma, em Helsinque, fica em uma praça, em frente ao parlamento finlandês. Historicamente, esta praça abrigou uma série de protestos políticos. Em colaboração com estudantes de arte locais, Dias & Riedweg escolheram alguns objetos - um ovo, um par de botas vermelhas, um despertador, entre outros – e sugeriram que passantes da praça escolhessem um desses objetos para atirar contra uma câmera, posicionada junto ao parlamento. O vídeo do projeto alterna cenas das pessoas atirando os objetos (uma pessoa por vez, um objeto por vez, em câmera lenta) com imagens de arquivo de manifestações políticas que ocorreram na praça. A projeção foi feita de dentro do museu para fora (as paredes do museu são de vidro), confrontando museu e parlamento. Esta projeção foi realizada em novembro de 2004, quando Helsinque fica escura por um longo período do dia. Conteúdo relacionado: O documentário expandido de Maurício Dias e Walter Riedweg, Consuelo Lins e página do Kiasma.

(2) Jovens africanos que hoje vivem em Liverpool. Este trabalho foi feito em colaboração com a FACT – Foundation for Art and Creative Technology.

(3) No texto Alteridad a cielo abierto. Los dispositivos poético-políticos de Mauricio Dias & Walter Riedweg a psicanalista Suely Rolnik aproxima e diferencia a metodologia de Dias & Riedweg com a Estruturação do self e a Nostalgia do corpo de Lygia Clark. Ver: DÁVILLA, Mela (ed.). Dias y Riedweg. Possiblemente hablemos de lo mismo. Barcelona: MacBa e Actar, 2003. p. 210-245.

(4) A galeria A gentil carioca está localizada no Saara, área central do Rio de Janeiro, enquanto a maior parte das galerias cariocas está na Zona Sul. No Saara convivem trabalhadores ambulantes, prostitutas, moradores de rua, bohêmios, entre uma série de “outros”.