Oxigênio e Sobrevivência

Por Eduardo Escorel para a Revista Piauí em 03/06/2020.

Prioridades na Cinemateca Brasileira e na vida

Referindo-se aos problemas institucionais crônicos da Cinemateca Brasileira (CB), Carlos Augusto Calil conclui a entrevista que ele e Adilson Mendes deram, na semana passada (26/5), ao podcast do site Outras Palavras afirmando: “Neste momento tudo isso é distante. Agora é socorro. Socorro é pagar salário, pagar as dívidas, retomar um mínimo de normalidade e bom senso. Se não houver um contraponto ao desmando do governo, a cultura fica atrelada. Ela fica a serviço ou, no mínimo, neutralizada por interesse do governo. A Cinemateca precisa ser salva, neste momento. Neste momento, ela precisa de oxigênio e perspectiva de sobrevivência, e depois o acerto de sua institucionalidade.” Trata-se de tentar esclarecer “Quem salvará a Cinemateca Brasileira?” e, para Calil, a receita se resume, de imediato, a fornecer “oxigênio e perspectiva de sobrevivência” para depois cuidar de sua configuração institucional.

Com pouco mais de 15 mil assinaturas, a petição Cinemateca Brasileira Pede Socorro, divulgada em 15 de maio, está para ser encaminhada ao governo federal através da Secretaria do Audiovisual (SAv) da Secretaria Especial da Cultura. A petição termina com uma advertência: “Se a indiferença com o futuro do patrimônio audiovisual brasileiro persistir, as consequências serão ainda mais graves [do que o incêndio de 2016 e a enchente de fevereiro deste ano]. Sem os cuidados dos técnicos e as condições de conservação, todo o acervo se deteriorará de modo irreversível. Nesse caso, quando chegar o socorro de Brasília, as imagens do nosso passado terão se tornado espectros de nossa falência como nação.”

Diante desse drama, sexta-feira passada (29/5) foi publicada no site de O Estado de S. Paulo a notícia que o governo federal vai rescindir o contrato de gestão [da CB] com a Associação Roquette Pinto – Acerp e reincorporar a Cinemateca à União. Em nota enviada ao Estado, o Ministério do Turismo e a Secretaria Especial da Cultura declaram que “a Cinemateca Brasileira não será fechada [...] prosseguirá sob a direção da Secretária Regina Duarte.”

Bem. O desmentido da decisão de fechar a CB que fora divulgada mais cedo no mesmo dia, poderia ser tranquilizador. Mas ao dar atenção primeiro à estrutura institucional do órgão, deixando para depois o oxigênio e a sobrevivência, o governo federal inverte as prioridades e mantém a Cinemateca em situação de risco. Diante das medidas urgentes indispensáveis para a instituição obter os meios necessários à preservação do seu patrimônio audiovisual e se recuperar, levando em conta o modus operandi do governo, persistem razões de sobra para causar apreensão. Embora defenestrada, a secretária Especial da Cultura não foi exonerada. Por sua vez, à frente da Secretaria do Audiovisual (SAv) está o quarto secretário em dezessete meses de gestão. Para se mostrar à altura do cargo e da dimensão da tarefa a ser resolvida, o atual secretário, Heber Trigueiro, teria que se mostrar capaz, em circunstâncias adversas, de socorrer a CB a curto prazo com os recursos necessários, sem aguardar que o novelo institucional seja desembaraçado.

Manifestação do Movimento SOS Cinemateca está marcada para amanhã, quinta-feira, 4 de junho, às 11 horas, em frente à sede da Cinemateca, na Vila Clementino, em São Paulo. Será lido o manifesto CINEMATECA BRASILEIRA - Patrimônio da Sociedade, assinado por 11 instituições internacionais e cerca de 30 entidades profissionais brasileiras, entre elas Associação Paulista de Cineastas – APACI, Associação Brasileira de Cineastas – ABRACI, Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual – SICAV, Cinémathèque  Française, Cineteca di Bologna, International Federation of Film Archives – FIAF, Festival de Cannes, Institut Lumière e Federación Iberoamericana De Productores Cinematográficos Y Audiovisuales – FIPCA.  Em função da pandemia de Covid-19, o comunicado sobre o evento informa que todos deverão portar máscaras e manter distância de pelo menos 2 metros dos demais participantes.

O manifesto declara, entre outros aspectos, “ [...] estarmos assistindo à inaceitável deterioração de suas [da CB] funções que já atingiu um patamar absolutamente incompatível com sua importância. Técnicos valiosos e especializados foram demitidos, e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento. Há muito a Cinemateca, em grave crise financeira, não recebe recursos governamentais necessários para o seu pleno funcionamento. Desde abril está com os salários dos poucos funcionários que restam atrasados e luta para pagar a conta de luz, que pode ser cortada a qualquer momento. Um eventual apagão elétrico será desastroso, pois atingirá a climatização das salas onde estão arquivados verdadeiros tesouros de seu acervo histórico. Sem refrigeração e inspeção constante, os filmes em nitrato de celulose – material altamente inflamável – ficarão expostos ao tempo e poderão entrar em autocombustão, como já ocorreu em 2016 [...] a história do audiovisual nacional corre enorme risco [...]” (o texto integral do manifesto e a lista completa dos signatários estão disponíveis aqui).

Sob certo aspecto, guardadas as diferenças devidas, reproduz-se na sociedade brasileira com um todo situação equivalente à da CB – a gravidade da pandemia impõe assegurar primeiro “oxigênio e perspectiva de sobrevivência”, além de aumentar o percentual de adesão ao isolamento social enquanto não houver evidências de inflexão das curvas de mortos e contaminados. Estão em curso, porém, diversas iniciativas para afrouxar o distanciamento físico, favoráveis à livre circulação individual, assim como à retomada da atividade comercial, prestação de serviços etc. É uma dicotomia alarmante. A mim, observador leigo em questões médico-sanitárias, diante dos dos 31.243 óbitos e 555.129 casos confirmados até 2 de junho, no Brasil, a chamada flexibilização parece um caso típico de recusa da realidade e mergulho na ilusão, mesmo admitindo haver situações diferenciadas país afora.

Não é a primeira vez que evoco a formulação do filósofo e escritor Clément Rosset (1939-2018), segundo a qual não há “nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real”. A recusa teria três formas radicais de se manifestar: suicídio, loucura e cegueira voluntária, como a de Édipo “perfurando os olhos [...] e que encontra aplicações mais comuns no uso imoderado do álcool e da droga.”

Cena do filme Limite (1931), de Mário Peixoto / Foto: Divulgação

Modo usual de se livrar do “real que incomoda”, segundo Rosset, seria não recusar ver, nem negar o real que é mostrado, mas persistir no mesmo ponto de vista e comportamento, “exatamente como se não tivesse visto nada”. A percepção presente e o ponto de vista anterior coexistem. “Trata-se menos de uma percepção errada do que uma percepção inútil [...] que constitui uma das características mais marcantes da ilusão.” "Na ilusão [...] a coisa não é negada: somente deslocada, posta em outro lugar [...] o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro.”

A reflexão de Rosset, desenvolvida em O real e seu duplo – Ensaio sobre a ilusão (José Olympio, 2008), ajuda no esforço para tentar entender ao menos duas questões presentes nesta hora. A primeira decorre das medidas de flexibilização que parecem ser precipitadas nos locais em que persiste o aumento diário de vítimas da Covid-19 e de contagiados pelo novo coronavírus. Creio ser ilusório acreditar que já podemos retomar atividades usuais anteriores à pandemia sem nos expor a riscos sérios nas cidades mais atingidas pela Covid-19, mesmo onde o número de mortes e de contagiados se estabilizou nos últimos dias, mas sem indicar tendência de queda.

Do mesmo modo, a percepção inútil, característica da ilusão, talvez ajude a explicar a persistência do apoio de 33% dos entrevistados ao presidente da República, equivalente a cerca de um terço do eleitorado, segundo pesquisa Datafolha publicada em 27 de maio. Apoio que se manteve estável mesmo após a divulgação das enormidades perpetradas na reunião ministerial de 22 de abril e os desmandos cometidos ao longo da última semana. Haverá partidários convictos nesse grupo de apoiadores, mas mesmo esses parecem ter adotado a postura de quem está muito apressado e encontra um sinal vermelho no caminho, conforme exemplo dado por Rosset. Dentre as posturas possíveis, há a do motorista iludido que, embora faça “justiça ao real, concordando, pelo menos em aparência, com a percepção ‘normal’”, uma vez que percebe o sinal vermelho, conclui ser a sua vez de passar e avança o sinal, com as consequências previsíveis.

Na pesquisa da XP/Ipespe realizada na terça e na quarta-feira passadas (26 e 27 de maio), o grupo que considera o governo ótimo ou bom oscilou um ponto para cima, em relação à pesquisa anterior, chegando a 26%. Os que consideram o governo ruim ou péssimo, após aumento de 8% em pesquisas anteriores, oscilou um ponto para baixo, chegando a 49%.

Há previsões sendo feitas indicando que chegaremos a ter mais de 125 mil mortos – quem ignora e se omite diante de catástrofe dessa dimensão, como é o caso do morador provisório do Palácio da Alvorada, ou furou os próprios olhos, ou assumiu a responsabilidade de avançar o sinal apesar de ter visto que estava vermelho.

É possível conviver com ilusões menos ameaçadoras em relação às quais temos como nos precaver. A do cinema é uma delas. A começar por acreditarmos estar assistindo a pessoas e artefatos em movimento quando, na verdade, o que vemos é a sucessão imperceptível de imagens estáticas. A partir dessa invenção técnica no final do século XIX, criou-se a linguagem que, em sua vertente dominante, redobrou a ilusão dando ao espectador a impressão de estar diante de um fluxo visual contínuo, em vez de uma soma de fragmentos visuais delimitados. O caráter ilusório da impressão de realidade que o cinema nos dá se reafirma ademais por meio do glamour das estrelas e dos ambientes fantasiosos aos quais parece dar acesso. Mas apesar de ser, portanto, ilusório por natureza, há um cinema, documentário e de ficção, dedicado à tentativa ambiciosa de conciliar ilusão e realidade. Aprendizes e praticantes dessa vertente podem desenvolver percepção apurada para as armadilhas do caminho, inclusive as existentes em outros campos.

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No capítulo de filmes que há para assistir em isolamento físico, continua até 7 de junho o We Are One A Global Film Festival, com exibição diária gratuita de vários filmes escolhidos pelos curadores dos festivais de Berlim, Cannes, Veneza, Sundance, Toronto e Tribeca, entre outros. Um dos destaques é As Pontes de Sarajevo.

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Chagall dans son jardin à Saint-Paul-de-Vences (1952-1970), de Frédéric Rossif e Henri Langlois; Matisse (1951), de Frédéric Rossif e Henri Langlois; e Entretien entre Serge Daney et Jean-Luc Godard (1988), de Jean-Luc Godard, destacam-se entre as novidades da semana disponíveis na plataforma de streaming gratuito da Cinemateca Francesa.

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As quatro partes de Me Cuidem-Se!, filme-processo de Bebeto Abrantes e Cavi Borges, com montagem de Wellington Anjos, continuam disponíveis no Vimeo por meio dos links https://vimeo.com/402303098 , https://vimeo.com/407230515 , https://vimeo.com/412990012 e https://vimeo.com/419779018. A quinta parte estreia hoje, 3/6.

Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/oxigenio-e-sobrevivencia/

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