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Inhotim, entre o público e o privado

O Estado de São Paulo, 30 de setembro de 2009, Jotabê Medeiro.

Tratado por galeristas de São Paulo como uma espécie de novo Eldorado das artes contemporâneas (certamente pela sua capacidade de adquirir obras por polpudas quantias, e aglutinar recursos públicos), o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, em Brumadinho (a cerca de 50 km de Belo Horizonte), o maior do País na atualidade, inaugura hoje nove novas obras permanentes de alguns dos mais celebrados artistas internacionais, como Matthew Barney, Doug Aitken e Yayoi Kusama.Jornalistas do País e de veículos internacionais estão na região para as inaugurações. O Instituto Inhotim é um caso de confusão entre público e privado. As obras fixas do museu mineiro pertencem ao seu fundador, Bernardo Mello Paz, que, segundo informações da instituição, gastou até agora cerca de US$ 200 milhões em aquisições, acervo botânico e construção de pavilhões. Bernardo Paz não fez uma doação definitiva de sua coleção ao instituto - cedeu as obras "em comodato de longo prazo", e permanece dando apoio com funcionários e materiais das próprias empresas ao museu. Do custo mensal de R$ 2 milhões, cerca de 70% viria de recursos do empresário - além de cerca de R$ 16 milhões do governo federal e investimentos da lei de incentivo regional e do Fundo de Cultura de Minas.Nem todas as obras novas, segundo informou Ana Lúcia Gazzola, diretora do Inhotim, terão pavilhões construídos especialmente para elas. Já os pavilhões que foram remodelados, como a casa que abriga obra de Rivane Neunschwander, usaram mão de obra emprestada. "Como os trabalhadores são das empresas de Bernardo Paz, o custo incremental das remodelações é mínimo e não chegou a ser estimado", informou Ana Lúcia."São nove obras com características muito diversas. Uma delas, a Narcissus Garden Inhotim, da artista japonesa Yayoi Kusama, é constituída por 510 bolas colocadas em um espelho d"água já existente na cobertura do Centro Educativo Burle Marx. Outras, como o Beam Drop Inhotim de Chris Burden, são obras situadas no vazio, grandes esculturas sem pavilhão. Em outros casos, a obra tem algum tipo de envoltório externo, como é o caso da obra Sound Pavillion, de Doug Aitken, e a De Lama Lamina, de Matthew Barney. Na obra Continente/Nuvem, da mineira Rivane Neunschwander, fez-se apenas uma renovação em uma residência remanescente do século 19. Dentre as novas obras, somente uma galeria foi construída para a criação da canadense Janet Cardiff & George Bures Miller, a The Murder of Crows, e trata-se de um galpão que abriga um conjunto de caixas acústicas."Segundo Ana Lúcia, muitas das obras de Inhotim "foram adquiridas há vários anos, pagas parceladamente ao longo do período e não há estimativa atual de valor venal. São obras muitas vezes comissionadas e realizadas pelos artistas no próprio local com custo de material, instalação (realizado parcialmente pela equipe do artista e equipe do Inhotim), além das despesas de viagem e hospedagem. Muitas obras, por suas dimensões, nem sequer poderiam ser postas à venda, o que dificulta estimar o seu valor".Inhotim está no terceiro ano de atividade. O curador da Bienal de Veneza, Jochen Volz, foi um dos profissionais contratados para trabalhar no centro desde seu início. Bernardo Mello Paz recusa-se a dar entrevistas. Não quis falar ao Estado, mas conversou com o jornal Correio Braziliense no dia 21. Ele diz que a compreensão do que Inhotim significa é uma "tarefa para a posteridade", e citou pesquisa Vox Populi que revela que mais de 90% dos frequentadores aprovaram o museu como fator de desenvolvimento da região. Paz considerou reportagens críticas sobre o museu como interpretações "maliciosas" da imprensa e ressaltou que o centro não foi planejado. "Nasceu de um embrião de jardim para dar prazer a quem aqui vivesse."O projeto do grande complexo de turismo e lazer em torno do Instituto Inhotim dependia, entre outras coisas, da construção de um centro de convenções pelo governo mineiro, com capacidade para 1,5 mil pessoas, em Brumadinho. O Centro de Convenções teria R$ 5 milhões do Estado de Minas e R$ 14 milhões do Ministério do Turismo. Mas a intenção foi barrada no Tribunal de Contas da União, que não concordou com a intenção de se construir algo com verba pública e ceder para exploração privada durante 20 anos.