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Falece Mauricio Segall - Diretor do Museu Lasar Segall entre 1967 e 1997

Falece Mauricio Segall - Diretor do Museu Lasar Segall entre 1967 e 1997

Maurício Segall diante da obra de Lasar Segall, seu pai. Fonte: revista Veja

Mauricio Segall, diretor do museu Museu Lasar Segall (MLS) entre 1967 e 1997 e filho do pintor. Faleceu no dia  31 de julho de 2017, em sua residência.
O velório foi realizado na manhã do dia 1º de agosto de 2017 no museu.

Maurício foi um visionário, que idealizou um museu singular para potencializar o legado de seu pai. Em claro contraste com o mausoléu, o MLS é um museu dialógico, contextual, em permanente interação e atualização vis-a-vis o mutante Jetztzeit. Um museu que performa como centro cultural. Acrescenta, portanto, outras peculiaridades a um novo formato de equipamento cultural lançado na França, por outro ser inquieto do século XX, André Malraux no pós-guerra. Cabe aqui a lembrança da dissertação do Roberto Ceni de 1991 que enfoca 3 centros culturais —o CCSP-Centro Cultural São Paulo, o Sesc Pompéia e o MLS— que transformaram a paisagem cultural de São Paulo nesse período obscuro de nossa historia, sob o domínio dos militares.
Apesar de diminuto diante dos outros dois em espaço físico, o MLS é irrequieto e inspirador como o seu criador.
Publicamos aqui o texto, de escancarada amizade e afeto do Roberto Schwartz pelo Mauricio, bem como o link para a referida dissertação de Roberto Ceni.

MAURICIO (VII. 2017)

por Roberto Schwartz

Vou ser breve. Para entender a pessoa de Mauricio Segall é preciso, na minha opinião, considerá-lo como um pacote explosivo de tensões. Por um lado, Mauricio descende de uma família rica e é filho de Lasar Segall, um dos grandes pintores de nosso tempo. Por outro, ele é comunista convicto e radical, numa acepção nobre, que vai além da filiação partidária e que a evolução histórica do comunismo deixou sem base. Esta bomba de contradições é tornada mais potente por um temperamento vulcânico, à moda russa, e pelo desejo exasperado de integridade e de coerência. Tudo isso misturado, mais a extraordinária energia física, fizeram dele um homem evidentemente de exceção.

O seu aspecto grão-burguês aparecia na naturalidade com que mandava e na sobriedade “no nonsense” com que considerava as questões de interesse material. A verdade é que entre o materialismo de proprietário e a clareza responsável do administrador de esquerda havia mais coisas em comum do que costumamos admitir. -- Por sua vez, a devoção ao acervo pictórico do pai, tratado como um patrimônio da humanidade, da cidade ou da nação, e não da família, não tinha nada de burguês. A generosidade com que Mauricio e o irmão financiaram o Museu, ao qual doavam as suas coleções Segall, de grande valor, além de imóveis e dinheiro, pertence a um mundo surpreendente, sem mesquinharia, em que a arte conta mais do que a propriedade. -- Quanto à vertente comunista, ela se manifestava na concepção mesma do Museu. A orientação pró-moderna mas anti-mercantil, empenhada na deselitização da cultura, bem como a organização democrática, em que os funcionários têm voz e iniciativa, apontavam para além do capitalismo. Chegados aqui, não há como não mencionar que esses aspectos avançados da posição de Mauricio e do Museu foram historicamente derrotados pelo curso geral do mundo, que tomou o rumo do aprofundamento da mercantilização, inclusive e notadamente da cultura.

Para dar uma ideia do teor de conflito nas posições de Mauricio, vou contar uma anedota. Estávamos os dois passeando na praia, quando chegamos a um conjunto de pedras enormes, que o acaso havia equilibrado de maneira esplêndida. Cometi a imprudência de observar que o conjunto, embora sem assinatura de artista, competia com a escultura  moderna. A resposta veio amarga e exaltada: o arranjo natural das pedras era superior a qualquer obra de arte, pois era acessível a todo mundo, sem o ranço elitista de museus e exposições, e sem o esnobismo e a competitividade de todo trabalho artístico. Por um momento breve mas lancinante, aí estavam as injustiças da sociedade de classes, que não perdoam, anulando o trabalho de vida inteira do criador de um museu modelo de democracia. Frente à beleza das pedras e à inaceitável desigualdade social, que subitamente se traduziam em raiva da arte, a dedicação meticulosa e amorosa à obra do grande pintor Segall ficava mal parada. Tivemos que espichar o passeio para que Mauricio recuperasse a calma.

Para concluir meu depoimento quero falar na solidariedade de Mauricio com os amigos perseguidos pela ditadura, solidariedade da qual eu mesmo me beneficiei para sair do Brasil. Enquanto não foi agarrado ele próprio pela repressão, Mauricio ajudou de muitas maneiras a luta contra a ditadura, às vezes com risco de vida. Com sua perícia no volante e energia de touro, ele perguntava pouco e estava sempre disponível para fazer a longa viagem de automóvel de São Paulo à fronteira do Uruguai, para ajudar alguém a fugir. 16 horas de ida, 3 de descanso e mais 16 de volta – e a vida continuava.