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'Bolsonavírus-22' não mata, mas imbeciliza, afirma o artista Augusto de Campos

Cláudio Leal para Folha de S. Paulo, em 12/02/2021.
'Bolsonavírus-22' não mata, mas imbeciliza, afirma o artista Augusto de Campos

Augusto de Campo no Sesc Pompeia durante a abertura da mostra "Rever", em 2018. Marlene Bergamo/Folhapress

Arco de homenagens celebra o poeta, que completa 90 anos no domingo

 

Na noite do último Natal, o poeta Augusto de Campos entrou no carro de Cid, seu filho, e percorreu o centro de São Paulo, deserto a tal hora. Numa parada em frente à Biblioteca Mário de Andrade, Campos olhou pela janela. “Cidade”, de 1963, passava num painel de LED de dez metros na fachada. O poema se acendia para celebrar os 90 anos que o poeta completa neste domingo.

Em São Paulo, um arco de homenagens festeja o aniversário do concretista. As exposições “Poema Cidadecitycité pela Cidade” e “Transletras”, esta última abrangendo trabalhos dos anos 1970 e 1980, com curadoria de Daniel Rangel, estão em cartaz na Mário de Andrade. Na avenida Paulista, a Casa das Rosas realiza um ciclo virtual de cursos, palestras, exibição de vídeos, show e sarau.

Há 70 anos, em 1951, Augusto de Campos lançava “O Rei Menos o Reino”, a sua estreia literária. Anterior ao movimento da poesia concreta, o livro revelava a sua força no leito dos versos. “Este é o rei e este é o reino e eu sou ambos./ Soberano de mim: O-que-fui-feito,/ Solitário sem sol ou solo em guerra/ Comigo e contra mim e entre os meus dedos.”

No ano seguinte, Augusto de Campos criou a revista Noigandres com seu irmão Haroldo e Décio Pignatari, o núcleo do grupo concretista. Nela, em 1955, ele publicaria a série de poemas em cores “Poetamenos”. O verso chegava ao reverso.

O movimento de poesia concreta explorou e radicalizou a sincronia entre elementos verbais, sonoros e visuais, confrontando a ideia de que a arte de vanguarda era um choque transitório, e não um fluxo duradouro de transformações formais.

Nos anos 1960, Campos criou os influentes poemas concretos “Greve”, “Cidade”, “Acaso”, “Luxo” e mais ainda a série dos “popcretos”. Em 1972,surgiu o “Viva Vaia”, e na mesma década os poemas-objetos em colaboração com Julio Plaza.

Além de traduzir e introduzir no Brasil um repertório literário mundial —Pound, Maiakóvski, Joyce, e. e. cummings, Mallarmé, Valéry—, o poeta promoveu a obra de inovadores na tradição brasileira, como Oswald de Andrade, Pagu, Kilkerry e Sousândrade.

Campos marcou seguidas gerações de poetas e tradutores; sua influência extrapolou a literatura e chegou também à música, às artes plásticas e gráficas, ao ensaísmo, ao cinema e ao teatro.

“Você sempre encontra uma espécie de tirania que quer uma diminuição, um apagamento da linguagem. Augusto foi no contrafluxo disso. Ele avançou muito o nosso campo de cultura. Na minha vida de leitor, ele é um dos maiores poetas da língua portuguesa”, diz o cineasta Julio Bressane, seu amigo desde uma projeção de “O Anjo Nasceu”, de 1969, em Nova York.

Diretor do curta “Hi-Fi”, de 1999, cinepoema sobre o concretista, Ivan Cardoso assegura que “Augusto é o único sobrevivente de um mundo que não existe mais: a poesia”. Numa nova parceria, Cardoso mandou
imprimir postais com fotografias suas, dos túmulos dos poetas russos Maiakóvski e Khlébnikov, tal como fizera com Ezra Pound. Campos enviou dois poemas para o verso.

Em 1968, a ruptura da tropicália —liderada pela “revolucionária família baiana”, como Campos se referiu ao grupo baiano formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé— originou um dos diálogos artísticos mais férteis do concretista com a música popular. “Pelos anos 1970, mostrei meus álbuns inteiros a ele, em geral em minha casa. Quando não, mandava para ele em São Paulo. E ele sempre me mandava o que ia lançando. A partir de um ponto, o ritmo de mostrar tudo o que gravava a Augusto me pareceu demais”, conta o tropicalista Caetano Veloso.

“Não sou bom de telefone, mas foi por telefone que Augusto me disse que tinha gostado muito de ‘Verdade Tropical’. Quando apresentei [o filme] ‘O Cinema Falado’, Haroldo e Décio demonstraram entusiasmo, mas Augusto fez restrições. Tudo instrutivo.”

Caetano elogia a produção recente do poeta. “Amo todos os poemas de Augusto contra Bolsonaro e amo o concreto-conceitual contra a prisão de Lula em segunda instância. Nunca deixo de pensar em Augusto. Ele foi entusiasta do ‘Araçá Azul’. Depois, para minha surpresa, preferiu ‘Qualquer Coisa’ a ‘Joia’. As reações dele sempre contam. Considero-o o maior poeta brasileiro vivo.”

A atuação multimídia de Campos se manifesta na diversidade de artistas e intelectuais aglutinados em antologias comemorativas. A editora Galileu lança a edição especial “90 Anos de Augusto de Campos”, coordenada por Ronald Polito, com poemas inéditos, fotos e depoimentos de Marjorie Perloff, Gerald Thomas, Júlio Castanon, Dirce Waltrick do Amarante e Luiz Costa Lima, entre outros.

Organizado em parceria com Walter Silveira e Bené Fonteles, com projeto gráfico de André Vallias, dentro da série “Arte na Espreita e na Espera - Poéticas na Quarentena”, um catálogo também em homenagem aos 90 anos reúne cerca de 40 artistas, poetas e músicos, como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Carlos Adriano, Gilberto Gil, Lenora de Barros, Péricles Cavalcanti e Tom Zé.

O poeta não concedeu entrevista, mas, num breve comunicado em que se declara “um trabalhador da poesia”, demonstra seu prazer com as plaquetes de “extraduções” publicadas pela editora Galileu e com o perfil @poetamenos, criado por seu amigo Alvaro Dutra no Instagram.“Me ajudaram a sobreviver à decepção do retrocesso brasileiro. Mas considero que o mais importante para o Brasil hoje é livrar-se do coronavírus-19 e do bolsonavírus-22. O quanto antes, melhor. Um vírus mata. O outro imbeciliza”, afirma Augusto de Campos.

Seu vínculo com a editora Galileu, de Jardel Dias Cavalcanti, em Londrina, no Paraná, diz muito do antigo pendor pela independência. Em 2018, o editor traduziu um ensaio sobre o compositor austríaco Webern, escrito por Glenn Gould, e o publicou numa plaquete. Campos gostou do exemplar e foi convidado por Dias Cavalcanti a publicar o que desejasse, no limite de 40 páginas.

“Retrato de Sylvia Plath como Artista” abriu a série das “extraduções”. Até hoje, são 15 plaquetes, dentre elas “Rimbaud”, “Marianne Moore”, “Esses Russos” e “Franceses: de Nerval a Roussel”.

“O que o deixa satisfeito é o fato de que, diferentemente de uma editora tradicional, que leva anos para produzir e divulgar um livro, a Galileu Edições é ágil na produção e encontra nas redes sociais uma forma de divulgação rápida e sem custo”, afirma Dias Cavalcanti.

De vida discreta, Augusto de Campos reapareceu na quarentena com o músico Cid Campos em duas versões do projeto “Transblues” —“Amor em Vão”, de Robert Johnson, e “Visitante dos Céus”, de Jimi Hendrix. Em dois vídeos no YouTube, o poeta acompanha o filho com uma gaita. Antes de tudo, a música.

Ciclo de eventos virtuais

Augusto 90 - 90 anos de Augusto de Campos
Casa das Rosas. Até 25/2. Programação e inscrições no site: casadasrosas.org.br

Exposições

Poema Cidadecitycité pela Cidade

Biblioteca Mário de Andrade. Tel (11) 3775-0002. De seg. a sex., das 13h às 16h. Até 23/4. Grátis

Transletras

Biblioteca Mário de Andrade. Tel (11) 3775-0002. De seg. a sex., das 13h às 16h. Até 11/6. Grátis

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/02/bolsonavirus-22-nao-mata-mas-imbeciliza-diz-augusto-de-campos.shtml?origin=uol