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GUY BRETT: ...“constantemente curioso, ser de visão e desinteressado na perspectiva do mercado da arte”.

Morreu em 02 de fevereiro de 2021, aos 78 anos de idade, o teórico, crítico e curador de arte Guy Brett. O britânico teve grande proeminência ao tratar da arte brasileira, atuando de forma a ressaltar sua importância nos ambientes internacionais em que circulava.

Brett escreveu importantes ensaios sobre artistas brasileiros, e foi um dos primeiros críticos a dar projeção na Europa, e, posteriormente, em âmbito global, de artistas brasileiros como Lygia Pape, Lygia Clark e Hélio Oiticica, permanecendo como grande interlocutor de artistas da América do Sul no continente.

O curador e crítico publicou seus primeiros trabalhos sobre arte em 1960, foi articulista dos jornais The Guardian e The Times, editor de arte da publicação City Limits na década de 1980 e colaborador em inúmeras revistas de arte, tais como Art in America, Signals, Macula, Les Cahiers du MNAM, Performance Magazine, Third Text e Parkett. Guy Brett foi ainda peça fundamental na criação da galeria Signals, em Londres. Apesar de sua breve existência (entre 1964 e 1966), a galeria londrina abrigou as primeiras exposições de Lygia Clark, Sergio Camargo e Mira Schendel na capital inglesa.

 

Co-fundadores da Signals, Paul Keeler, Sérgio de Camargo, Christopher Walker, David Medalla, Gustav Metzger com Guy Brett no centro, 1964  ©CLAY PERRY, ENGLAND & CO.

Seu olhar contemporâneo —inclusivo, dialógico, ampliativo— para a produção artística de outras partes do mundo e em particular para a da arte latino-americana foi fundamental para uma inserção contundente e re-significante da produção de vanguarda  proveniente do que hoje denominamos de “sul-global” nos domínios eurocêntricos da cultura. A exposição por ele realizada na Galeria Ikon em Birmingham na Inglaterra em 1990 —Transcontinental: Nove artistas latino-americanos— é um marco nesse processo de revisão crítica da historiografia da arte centrada em uma única narrativa hegemônica que orientou o colecionismo de arte moderna e contemporânea até a virada de século. Um ano antes, propôs um núcleo transgressor de arte de vanguarda na exposição Arte na América Latina: a era moderna, 1820-1980 de curadoria geral de Dawn Ades, historiadora da arte da Universidade de Essex, demonstrando, claramente, esse contra-ponto crítico ao cânone eurocêntrico.

 

Brett foi ainda pioneiro na promoção e análise da chamada arte cinética, e especialmente ligado aos movimentos neoconcretos, concebidos como reação ao racionalismo com viés na eliminação da autonomia da obra de arte e ímpeto de ligá-la à noção de objetividade científica, munida de um objetivismo mecanicista. No Brasil, o neoconcretismo mostrava-se, através de seu porta-voz Ferreira Gullar, preocupado em afirmar a integração absoluta entre os elementos que são as noções de tempo, espaço, forma e cor, não sendo essas preexistentes à obra de arte, assim como fazer uso de uma gama de recursos geométricos de forma a exprimir as realidades humanas complexas.

O britânico desenvolveu estreitos laços com os representantes do neoconcretismo brasileiro, sendo importante ator do processo que os levou a expor em galerias internacionais. Esteve envolvido na organização da primeira exposição de Hélio Oiticica em Londres, na década de 60, na galeria Whitechapel, e continuou envolvido nas montagens de outras mostras após a morte precoce do artista. Foi curador da exposição Georges Vantongerloo no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, no ano de 2010, e um dos organizadores da exposição de Cildo Meireles, em 2008, na Tate Modern, em Londres. O crítico reforçou o ineditismo que encontrara nas obras de Clark e Oiticica em seu livro Kinetic art: the language of movement, de 1968, em que ressaltou a contribuição especificamente brasileira para a arte, envolvendo um “cineticismo do corpo”, indo ao cerne da atividade do espectador em diálogo com o trabalho.

Vista de instalação Campos de Força: Fases do Cinético na Galeria Hayward em Londres, 2000-2001. Fonte: <https://hudsonarchitects.co.uk/our-work/force-fields>

Foi esse colocar do corpo vivo do indivíduo no centro do seu trabalho, no caso dos artistas brasileiros, que Brett considerou como sendo uma contribuição essencial para pensar e praticar uma atuação enquanto questionador do colonialismo inglês e ocidental. Tais características, segundo o crítico, desafiavam a arte ocidental, tornando-se arte local mas de caráter universal.

Em entrevista a Marcio Doctors, em 1989, Brett deixou claro que sua preocupação não mais compreendia o risco de a arte brasileira ser invisível no mundo - o risco, para ele, residia na forma como essa visibilidade se dá: se de forma consumista, essencialista, ou de forma a mostrá-la em seu potencial de desafiar o que chamou de arrogância e cegueira do pensamento artístico e colonial dos grandes centros do Ocidente. A chave, para Brett, era escapar à tentação de colocar a arte brasileira em uma posição de folclore, como cultura facilmente consumível pela captura de suas imagens.

Mais recentemente, Brett foi curador da exposição Aberto fechado: caixa e livro na arte brasileira, que abordou o fenômeno do uso dos formatos livro e caixa nos trabalhos de artistas brasileiros a partir da segunda metade do século XX. A exposição reuniu entre 2012 e 2013 na Pinacoteca de São Paulo cerca de 90 obras como “Estojo de Geometria” (1977), de Cildo Meireles, “Pulmão” (1987), de Jac Leirner, “Caixa Brasil” (1968), de Lygia Pape, além de obras de artistas como Anna Bella Geiger, Antonio Dias, Ferreira Gullar, Lygia Clark, Mira Schendel, Regina Silveira, Ricardo Basbaum, Tunga e Waltercio Caldas, datadas desde a década de 50 aos anos 2010.

 

"Livro de Carne" (1978-1979), de Artur Barrio; exposição de Guy Brett que reuniu 90 obras de brasileiros entre 1950 e 2010 que utilizam caixas e livros como forma — Foto: Divulgação

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