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Além das pessoas, restaurantes, bares e espaços culturais estão na UTI

Nabil Bonduki para Folha de S. Paulo, em 14/03/2021.
Além das pessoas, restaurantes, bares e espaços culturais estão na UTI

Aos sábados, a casa Ó do Borogodó oferece feijoada acompanhada de roda de samba. Ezyê Moleda/Folhapress

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nabil-bonduki/2021/03/alem-das-pessoas-restaurantes-bares-e-espacos-culturais-estao-na-uti.shtml

Ó do Borogodó, como toda a cadeia de cultura, está fortemente ameaçado

 

Quando tomei conhecimento de que o Ó do Borogodó estava ameaçado de fechar definitivamente senti, como muitos e muitas, um aperto no coração.

Não poderíamos perder um lugar tão especial para toda uma geração que se reuniu e se conheceu nesse espaço, que se emocionou ouvindo o samba de gente como Fabiana Cozza, que viu sair de lá um dos movimentos que fez o Carnaval de rua crescer em São Paulo. Vê-lo desaparecer seria como se um pedaço da alma cultural paulistana estivesse indo embora.

Sentimento que tem sido comum nos últimos tempos, quando tantos entes queridos e importantes estão partindo sem despedidas enquanto muitos lugares relevantes para a memória e a identidade da cidade tem desaparecido, sem que sequer possamos vivenciá-los pela última vez. Não são apenas 278 mil mortos que já enterramos nessa pandemia; estamos perdendo também a memória afetiva da cidade.

Em São Paulo, não é só o Ó, atolado em dívidas, que está ameaçado. O Bourbon Street, casa de jazz e blues, outra referência musical de São Paulo, que já foi palco do B.B. King e Nina Simone, também passa por dificuldades, assim como a Casa de Francisca, Jazz nos Fundos, Jazz B e o Centro Cultural Rio Verde.

Muitas casas musicais já fecharam para sempre, como o espaço de show Morfeus Club, conhecido como o berço do Trap Nacional, localizado na Santa Cecília, e a Casa do Mancha, espaço alternativo de música indie rock, localizado na Vila Madalena. São vítimas não contabilizadas da Covid-19, que deixam vazios na cidade e placas de “aluga-se”.

Toda a cadeia da cultura, gastronomia e entretenimento, de gestão privada mas de interesse público, incluindo cinemas de rua, teatros independentes, galerias de arte, bares e restaurantes, está fortemente ameaçada, processo que está ocorrendo em todas as cidades brasileiras.

Em São Paulo, mais de 25% dos bares e restaurantes fecharam as portas, número que deverá crescer, e muito, na nova quarentena. Lugares que foram referências na cidade desapareceram, como o Marcel, com 65 anos; o Pasv, na Avenida São João há 50 anos; Abu-Zuz, que opera no Brás desde 1989; o Filial e o Sabiá, tradicionais bares da Vila Madalena; e La Frontera, na Consolação, dentre muitos outros. Muitos outros, como o Canto Madalena, estão com grandes dificuldades.

Se nada for feito, perderemos um patrimônio afetivo da maior importância, duramente construído por gente que se dedicou e investiu para transformar São Paulo em uma das mais importantes referências culturais e gastronômica do mundo. Não podemos deixar isso acontecer.

Além dos aspectos culturais que, por si só, já exigiriam uma ação do poder público, trata-se de uma vocação econômica que poderá se perder para sempre, nos levando para uma decadência urbana sem limites. Depois que um espaço fecha, sabe-se lá quando e a que custo poderá reabrir.

São Paulo já foi a capital do café e, posteriormente, a maior cidade industrial da América Latina. No século 21, no período pós industrial, tornou-se a metrópole da cultura e da economia criativa, que a colocou em destaque no cenário global, abrindo um novo horizonte para a economia urbana.

A cidade transformou-se em uma grande arena cultural, talvez única no mundo pela diversidade e riqueza de manifestações artísticas que proliferaram tantos em espaços culturais privados, como em equipamentos e espaços públicos, no centro e na periferia. Essa variedade gerou a enorme potencialidade de São Paulo.

O caledoscópio cultural se tornou multifacetado: megaeventos, como o Carnaval de rua, a Virada Cultural e a Parada Gay; manifestações de cultura periférica, como hip-hop, saraus, slams e funk; ocupação espontânea do espaço público pelos artistas de rua, como na Paulista Aberta; grafites que surgem nas empenas cegas dos prédios; exposições em galerias e museus; espetáculos em teatros, centros culturais, casas de música e de cultura, cinemas de rua e cineclubes.

A gastronomia ocupa lugar de destaque nesse ambiente cultural, com seu leque diversificado de sabores de todas as partes do mundo, no topo de uma cadeia econômica amplamente ramificada.

Nenhum setor foi tão afetado como esse na pandemia. Os espaços culturais, bares e restaurantes são por excelência lugares de encontros e sociabilidade, de vida urbana. O isolamento social impacta de maneira drástica suas atividades. Isso já estava claro há um ano e exigia do poder público iniciativas relevantes para manter esse setor de pé.

A Lei Aldir Blanc, proposta pelo Congresso Nacional, foi um pequeno alento. Curiosamente, os recursos vieram do governo federal, presidido por um inimigo na cultura, o único apoio financeiro relevante para os espaços culturais. Do estado e do município, quase nada. Para os bares e restaurantes, a única alternativa foi tomar empréstimo com carência e juros mais baixos, mas que devem preciso pagos. Muitos não sabem como.

No momento em que a pandemia acelera, com uma média diária de quase 2000 óbitos, em que a vacinação anda a passo de tartaruga e o vírus se propaga na velocidade do som, cada vez mais forte, resistente, contaminante e agressivo, não há como vislumbrar um horizonte de flexibilização e reabertura a curto ou médio prazo para essas atividades.

Março de 2021 será certamente o mês mais mortífero da pandemia e, provavelmente será superado em abril, pois o número de casos recordes e o colapso do sistema de saúde irão contribuir para o aumento da mortalidade. As medidas restritivas são indispensáveis e devem durar bastante tempo.

Nesse contexto, quem resistiu na 1ª onda, terá poucas chances de enfrentar esse novo tsunami sem uma estratégia governamental de apoio e de redução de danos. Isso precisa ser debatido em uma mesa de negociação com os três níveis de governo e o setor cultural e gastronômico.

Não se trata de criar um mero auxílio emergencial mas da estruturação um programa governamental, como o Programa Pontos de Cultura, que garantisse a manutenção desses espaços enquanto durasse as restrições. Dessa forma, na retomada, a cidade poderia recuperar o ambiente cultural perdido na pandemia.

Nesse estratégia, poderia estar incluídos o apoio para o pagamento de aluguéis (exigindo dos proprietários, como contrapartida, descontos no valores de locação), suspensão dos reajustes e dos despejos, isenção de impostos e taxas de serviços públicos, empréstimo em condições favoráveis.

Enquanto essa estratégia não vem, cada um se vira como puder. Para sair do sufoco e não fechar definitivamente, Ó do Borogodó criou um crowfunding, o ficaó.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nabil-bonduki/2021/03/alem-das-pessoas-restaurantes-bares-e-espacos-culturais-estao-na-uti.shtml