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Um legado inspirador

Gilson Jorge para A Tarde, em 22/08/2021.
Um legado inspirador

As obras estão expostas nos espaços do Casarão e da Capela e podem ser vistas até 10 de dezembro. Foto: Felipe Iruatã / Ag. A TARDE

MAM reabre com O Museu de Dona Lina, revendo a própria história e as ideias de Lina Bo Bardi, que aproximou arte moderna e cultura popular

 

Lina Bo Bardi desembarcou em 1958 em Salvador e teve contato com a cultura afro-brasileira, realidade bem diferente da cosmopolita São Palo que recebeu a arquiteta italiana depois da Segunda Guerra Mundial, assim como o seu marido Pietro Maria Bardi.

Aqui, foi convidada a dirigir o Museu de Arte Moderna, instalado então no foyer do TCA, e com a reforma do Solar do Unhão em 1960, fez algumas intervenções no casario colonial, como a escada de madeira que se tornaria símbolo de seu legado.

Em 1963, inaugurava na nova sede com uma exposição revolucionária, que colocava lado a lado mestres consagrados da arte brasileira com artistas sertanejos vistos como folclóricos.

Com o golpe militar e a censura às artes, Lina levou a exposição para a embaixada brasileira em Roma, mas os generais obrigaram o Itamaraty a cancelar a mostra que, para eles, não era representativa do Brasil.

É justamente com o clima bélico entre governo e arte que o MAM, fechado desde março de 2020, reabre as suas portas ao público, com a exposição O Museu de Dona Lina, que deve ficar em cartaz até 10 de dezembro deste ano.

"A gente vive um momento político em que as ações artísticas vêm sendo questionadas, o que é arte e o que não é", afirma o curador do museu, Daniel Rangel, que foi assessor entre 2007 e 2008 da ex-diretora do MAM, Solange Farkas; diretor de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), de 2008 a 2011; diretor artístico e curador do Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) em São Paulo (2011-16) e retornou ao MAM em junho deste ano a convite do diretor Pola Ribeiro.

 

Conceitos

Em cartaz na exposição, trabalhos inéditos de Pierre Verger e Mario Cravo Neto, mas o curador garante que as escolhas se deram mais pelos conceitos que as obras trazem do que por quem as assina: "Houve uma questão muito mais do tema que elas abordassem e da estética que elas traziam".

A escada de Lina aparece nessa exposição não apenas como um meio de transporte até o primeiro andar do casarão principal, mas como uma atração.

"É uma obra que resume todo o conceito da exposição, a união dessa técnica de construção de carro de boi, que é totalmente popular, num desenho supermoderno, contemporâneo, de uma escada quadrada circular, que tem todo esse aspecto. Ela meio que resume todo o conceito", afirma Rangel.

Para ele, colocar a chamada arte popular  no mesmo espaço dos grandes artistas é uma forma de mostrar que essas barreiras já foram derrubadas. Bem no espírito proposto pela arquiteta italiana, que dirigiu o MAM de 1958 a 1963.

"Não é uma exposição sobre Lina. É um resgate da história do museu. Eu trouxe a proposta curatorial de Lina para o espaço", afirma Rangel.

"A gente vê um ministério querendo classificar o que é arte sacra, o que é arte contemporânea. A gente vive num momento de ruptura de fronteiras", defende.

Aliás, o curador ironiza o fato de o secretário nacional de Cultura, Mário Frias, ter viajado à Itália para participar de uma homenagem da Bienal de Arquitetura de Veneza a Lina Bo Bardi sem saber quem ela era. "Essa exposição é ótima para apresentar a ele um pouco do pensamento dela", diz.

Na prática, a exposição, com cerca de 300 obras, traz o acervo do MAM, que inclui arte contemporânea, peças do Acervo de Arte Popular Lina Bo Bardi e do catálogo do Solar Ferrão, do Pelourinho.

A exposição foi montada a partir de similaridades temáticas, como a seção Capela, dedicada às manifestações populares de fé, como os ex-votos, santinhos que acompanham viajantes, as carrancas do rio São Francisco, que teriam a função de espantar os maus espíritos ao redor.

 

Acesso

Se, na fundação do museu, o desafio foi colocar lá a arte popular - originalmente Lina pensava em instalar ali o Museu de Arte e Tradições Populares -, agora o MAM se lança ao objetivo de trazer o próprio povo para perto de si.

Com difícil acesso para um museu público, tanto pela distância dos pontos de ônibus, quanto pela ladeira íngreme e de piso irregular que liga a Avenida Contorno ao conjunto arquitetônico - além da própria estrutura interna -, é difícil atrair a população de baixa renda e pessoas com dificuldades de locomoção.

Para tentar mitigar essas dificuldades, o MAM fez uma parceria com a Universidade Estadual da Bahia (Uneb). Os trabalhos começaram há um mês.

"Mudar, a gente mudou por enquanto a postura", explica a especialista e professora Sandra Farias, que faz a consultoria para pensar possibilidades de acessibilidade junto à equipe do MAM.

O caminho é longo, vai ser preciso pensar em alternativas, conseguir verbas para as obras, mas a  ideia é desde já incentivar as pessoas com dificuldades de mobilidade a mostrar as caras.

"É o ideal? Não, porque tem muita coisa que eles não vão conseguir acessar. Mas a gente já diz: Queremos vocês aqui", afirma.

A diretora do Núcleo de Pessoas com Deficiências da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Zenira Rebouças, que visitou o Solar do Unhão esta semana para conversar com Sandra, diz que "é necessário pensar em invenções no espaço e no entorno e contemplar também quem tem deficiência visual, baixa visão, idosos, todo mundo". Por ora, considera que pelo menos "já tem esse olhar, essa mudança de atitude".