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GUGGENHEIM-RIO É VISÃO ESTEREOTIPADA DO BRASIL, por Ligia Nobre

O projeto do arquiteto-estrela francês Jean Nouvel para o Guggenheim-Rio exacerba a condição museu-shopping-parque temático ao sintetizar, em território latino, os estereótipos dos “trópicos” do europeu colonizador e do “melhor das férias tropicais” do norte-americano.

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por Ligia Nobre

A Fundação norte-americana Solomon R. Guggenheim ampliou na última década suas atividades pelo mundo com um sistema de franquias, hoje presente em cinco cidades: Nova York, Veneza, Berlim, Bilbao e Las Vegas. A franquia Guggenheim é paradigmática da introdução da lógica de livre mercado nas práticas do mundo das artes a partir dos anos 80, principalmente na Europa e EUA, redefinindo o papel dos museus e instituições culturais na disputa pelo capital simbólico que a arte seria capaz de “emprestar” às cidades e empreendimentos.

O efeito econômico e cultural do Guggenheim-Bilbao, inaugurado em 1997, inflacionou a concepção homogênea de governos e empresas sobre o papel dos equipamentos culturais de grande porte nas “revitalizações” (ou seja, torná-las seguras para o consumo, o espetáculo e o passeio) das cidades (1). Houve um boom de “grandes museus” requisitados por cidades em busca de uma “sinergia cultural, urbana e econômica”; ou seja, de uma marca que circule na mídia como um logo, “garantindo” a inserção daquelas no mercado global.

As formas curvas e tortuosas revestidas com titanium e em escala grandiosa, construídas pelo arquiteto norte-americano Frank Gehry, aceleraram a ciranda da “arquitetura de museus” fotogênica produzida por arquitetos-estrelas. O edifício mais significativo passou a ser disputado pelas instituições, e não mais a coleção em si, resultando em museus que são “só paredes” sem verbas para gestão, aquisição de obras ou pesquisa.

As distinções entre museus e shoppings são hoje menos perceptíveis, assim como entre o visitante de museus e o consumidor. Com o suporte reduzido dos governos europeus e norte-americanos às artes e o envolvimento do capital privado cada vez mais rarefeito, os museus assumiram – ao mesmo tempo em que competem no mercado – uma similaridade operacional, programática, formal e de inserção urbana de enclaves com os shopping malls e complexos de entretenimento, a exemplo de Bilbao. A organização espacial do museu, com um átrio central que, de maneira concêntrica, conecta as galerias nos três andares por um sistema de escadas tortuosas e elevadores panorâmicos, em pouco se difere dos complexos de entretenimento de Jerdi Partnership, em que a arquitetura funciona como organizadora e controladora dos fluxos e consumo. Gehry está preocupado com os “efeitos espaciais” de sua arquitetura, com resultados muito semelhantes à “experiência espacial” descrita por Jerdi, como uma atração per se, promovendo o consumo de bens, life style e do próprio espaço. (2)

As butiques de luxo estão cada vez mais similares aos museus e galerias de arte. A grife italiana Prada recentemente ocupou o endereço do Guggenheim-Soho em Nova York com projeto do arquiteto Rem Koolhaas/OMA (autor das duas unidades Guggenheim em Las Vegas, em 2001), que criou uma loja que também se dedica a atividades culturais, mais próxima de um espaço temático “semi-privado” que de um espaço alternativo “semi-público”.

O projeto para o Guggenheim-Rio apresentado pelo arquiteto-estrela francês Jean Nouvel em fevereiro de 2003 exacerba a condição museu-shopping-parque temático ao sintetizar os estereótipos dos “trópicos” do europeu colonizador e do “melhor das férias tropicais” do norte-americano num território latino-americano. O projeto é composto por volumes dispersos em 42 mil m2 de área submersos no Pier Mauá (sim, abaixo do nível do mar na Bahia de Guanabara), com salas de exposição, “pirâmides”, espelhos d’água, uma floresta tropical invertida com cachoeira a 30 m de profundidade. No extremo oposto do pier uma torre cilíndrica gigante em aço-corten abriga um restaurante panorâmico e uma cobertura em forma de nuvem, de onde se avista ao longe a cidade cartão-postal. (3) Acrescente-se a isso o elemento emblemático do projeto: uma lâmina branca que separa o museu da malha urbana local, uma barreira/vitrine para o anúncio de eventos e patrocinadores, negando a cidade real marcada por desigualdades sócio-territoriais. Importante ressaltar que o Guggenheim é mais um elemento do “padrão liberal de planejamento urbano” que prevalece há tempos no Rio (que inclui intervenções de grande porte, segundo o modelo Barcelona, orientadas aos grupos dominantes da cidade) (4), com o intuito, no caso, de “revitalizar” a região portuária. Os termos de contratação entre a Prefeitura e a Fundação prevêem a construção e gestão inteiramente subsidiados por verbas públicas, com um valor três vezes maior que o gasto em Bilbao (que por sua vez custou a soma dos maiores museus espanhóis construídos na década de 90).

As dimensões megalômanas e parasitárias do Guggenheim-Rio no frágil e precário contexto institucional, urbano e cultural brasileiro o configuram como um “grande naufrágio anunciado” (5). O projeto arquitetônico de Nouvel é um índice que cinicamente explicita as lógicas intrínsecas às ações políticas da Prefeitura do Rio, da Fundação Guggenheim e dos outros atores e forças envolvidos.

Notas:

1 Arantes, Otilia in Urbanismo em fim de linha, EDUSP São Paulo 1998, e “Uma estratégia fatal” in A cidade do pensamento único, editora Vozes, São Paulo 2000

2 Não por acaso, a Disney comissionou Ghery tb. Mais info in Guide to Shopping, project on the city 2, ed. Rem Koolhaas e outros, ed Taschen EUA 2000

3 Mais informações sobre o projeto in revista AU, Junho 2003, ed. Pini, São Paulo, pp. 42-47 . Otavio Leonidio fez uma análise detalhada do projeto arquitetônico de Jean Nouvel in www.vitruvius.com.br

4 Detalhes in Vainer, Carlos B. in “Os liberais também fazem planejamento urbano?” in A cidade do pensamento único, editora Vozes, São Paulo 2000

5. informações e dados in site Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br ) e e-mails distribuídos via internet. Análise da viabilidade do Museu Guggenheim: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/03/249807.shtml

No Brasil, após a disputa entre algumas cidades, foi assinado um protocolo em outubro de 2000 entre a Associação Brasil + 500, atual BrasilConnects, e a Fundação Guggenheim prevendo a construção do museu na cidade do Rio de Janeiro. Em abril de 2003 a Prefeitura firmou um contrato com a Fundação baseado num estudo de viabilidade no Píer Mauá e numa proposta do arquiteto francês Jean Nouvel. Ações públicas contrárias ao Museu ajudaram a elaborar um extenso dossiê que questionou minuciosamente sua viabilidade, realização e o “desequilíbrio (...) da suposta ‘sinergia’ de interesses entre as partes envolvidas” , servindo como documento oficial dos vereadores responsáveis pela CPI de investigação do contrato e liminar. O bloqueio (Jul 03) da instalação de uma filial do Museu Guggenheim no Rio de Janeiro pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça, mantido pela liminar concedida pela Justiça fluminense para anular o contrato assinado entre a Prefeitura do Rio e a Fundação, permite-nos começar a esboçar as múltiplas dimensões implicadas neste processo. Recentemente, o Guggenheim encerrou duas unidades nos EUA, descartou projetos em Lower Manhattan, sua iniciativa de operar na internet, e diminuiu significativamente o número de funcionários e o orçamento anual, em sinal de franca retração de sua política de branding e franchise . A fundação já está atenta a outra filial na Ásia.