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Três centros culturais na cidade de São Paulo

Dissertação de Mestrado de Roberto Cenni / ECA - USP, 1991

Por Roberto Cenni
Orientação: Prof. Dr. José Teixeira Coelho Netto

 

Sobre a pesquisa

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INTRODUÇÃO


A dissertação de mestrado "Três centros culturais da cidade de São Paulo" tem como objetos de
pesquisa o Centro Cultural São Paulo, o Museu Lasar Segall e o Centro de Lazer Sesc Fábrica da Pompéia
por terem se caracterizado como os principais centros culturais da cidade.

Por centro cultural entende-se o lugar que oferece opções tais como consultas e leituras em uma
biblioteca, apreciação de exposições, atividades do setor de oficinas, exibição de filmes e vídeos, audição de
músicas e registros sonoros, apresentações de espetáculos - enfim, um espaço que abrigue e possibilite essa
diversidade de expressões de forma a propiciar uma circulação dinâmica da cultura. No centro sempre está
acontecendo algo que atrai as pessoas e as convida a ir verificar as várias propostas elaboradas pelos
agentes culturais - que não deveriam apenas preparar atividades, mas também estimular a relação dos
frequentadores com os elementos culturais.

A cidade de São Paulo tem poucos centros culturais periféricos. Há vários locais que trabalham
especificamente com uma ou outra das possibilidades acima citadas, oficinas que oferecem cursos episódicos
com o programa e o período pré-fixados, e alguns museus que, eventualmente - dependendo de quem os
está dirigindo - atuam como centros culturais em determinadas épocas, voltando depois às exposições do
acervo ou mostras temporárias; estes espaços não participam, portanto, do caráter de múltipla atuação dos
centros de cultura. Os três centros estudados diferem bastante quanto às instalações, especificidades e órgãos
administrativos a que respondem.

O Centro Cultural São Paulo localiza-se num prédio projetado para abrigar inicialmente uma grande
biblioteca pública. É, portanto, uma biblioteca-centro cultural, e o seu espaço foi construído especificamente
para promover contatos culturais, o que não ocorreu com os outros dois centros, que foram adaptados de
antigas construções. Pertence à prefeitura paulistana e foi instituído por lei como sendo um departamento da
Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

O Museu Lasar Segall surgiu de uma iniciativa particular da família Segall, tendo sido posteriormente
incorporado pela Fundação Nacional Pró-Memória. Está instalado na antiga residência do artista,
onde mantém o acervo de obras de Segall, e, como propõe diversas atividades culturais,
constitui-se em um museu-centro cultural.

O Centro de Lazer Sesc Fábrica da Pompéia está no espaço restaurado de uma antiga fábrica de
geladeiras e tambores. É um centro de lazer cultural e pertence ao Serviço Social do Comércio.
Procurou-se mostrar o que é cada um dos centros em suas várias instâncias, o passado (histórico da
implantação e realizações culturais), a instalação física (descrição da arquitetura e de seus espaços,
equipamentos, problemas funcionais), a estrutura oficial de organização (regimento interno, lei de criação,
organograma) , a forma de funcionamento (definição administrativa, recursos disponíveis), a atuação política
(diretrizes atuais, discurso institucional), as opções culturais (programas de atividades, como se lida com a
cultura e o que se pretende) e a relação com as pessoas (tratamento dado aos funcionários, o que estes
pensam da instituição, como se caracteriza a freqüência) .

No caso do Centro Cultural São Paulo, foram estudados a sua construção e os problemas advindos da
não finalização da obra, que deram origem à sua história tortuosa e polêmica que ocupou as manchetes de
jornais; os sonhos dos arquitetos e a realidade do prédio construído; as idealizações de Mário Chamie de
que, pelo menos entre as paredes deste centro cultural, as pessoas estivessem mais próximas e pudessem
ter iguais oportunidades; os vários serviços culturais prestados pela prefeitura que passaram a ser reunidos
no centro e a forma pela qual este se relaciona administrativamente com a Secretaria Municipal de Cultura.
O Museu Lasar Segall, que se distingue pela conciliação de três áreas básicas - a biblioteca, o museu
que abriga o acervo de Segall e as atividades de centro cultural - é examinado na sua atuação como espaço
experimental e nas inovações que trouxe ao âmbito cultural da cidade. As preocupações museológicas, a
valorização da reflexão e as diretrizes presentes nas idéias e concepções de Maurício Segall determinam a
atuação do museu, devendo-se também destacar a sua condição de liberdade apesar de ser um órgão da
Fundação Nacional Pró-Memória.

Descreveu-se o que é o Sesc - Serviço Social do Comércio, suas metas e modo de ação, para melhor
se compreender o Centro de Lazer Sesc Fábrica da Pompéia. Tendo iniciado suas atividades como um
espaço que mostrava e promovia diversas manifestações culturais do que se considerou, no início dos anos
80, a vanguarda paulistana, brasileira, e mesmo internacional nas áreas de teatro, dança, música e artes
plásticas, percebe-se hoje a maior presença do caráter assistencial neste centro. Paralelamente à
programação cultural, desenvolvem-se projetos de atendimento de públicos específicos (crianças e idosos),
atividades esportivas, serviços de alimentação e a ação de todo um complexo administrativo para receber o
grande público que se espera.

Nas pesquisas foram utilizados os documentos de cada instituição, seus textos e publicações; nos
casos do Centro Cultural São Paulo (que não tem praticamente nada em termos de registros) e do Sesc
Fábrica da Pompéia (o Sesc só dispõe de textos teóricos do que se pretendia fazer, sem relatórios das
experiências realizadas nessa unidade), o trabalho foi desenvolvido principalmente através das notícias de
jornais e revistas e das entrevistas com funcionários de diversos setores. A base da pesquisa foi o
organograma de cada instituição, eixo sobre o qual se define seu funcionamento, sendo também o elemento
mais concreto para se ingressar nas vicissitudes de cada espaço. O Museu Lasar Segall possui maior
definição dada por seu regimento interno e o Centro Cultural São Paulo tem suas metas determinadas pela lei
de criação, sendo que partes destes dois documentos foram reproduzidas no transcorrer da dissertação.
A arquitetura foi bastante considerada por se constituir num fator determinante do que é conveniente
ser realizado em cada centro. Este trabalho pretendeu verificar como se pensa a cultura e como ela é
apresentada e processada nas três instituições, procurando-se analisar a atuação geral de cada centro e sua
importância para a cidade. Os dados e as informações utilizadas foram obtidos em estatísticas feitas pelos
próprios centros, nas entrevistas realizadas com agentes culturais e através da observação - diante da
inexistência de outros parâmetros científicos para se avaliar a prática cultural. Posteriormente, realizou-se o
estudo comparativo entre as intenções, os discursos, as condições e as práticas dos três centros em questão.
A constatação da necessidade de estudar a atuação dos centros culturais de São Paulo e o que
possibilitam ao público frequentador deve-se à notória inexistência de pesquisas e análises teóricas nesta
área. A história da criação e das realizações destes centros é, na maioria das vezes, de difícil acesso devido
ao grande descaso pela memória e à falta de registros de suas vivências. Tal atitude é perigosa pois permite
que a experiência se desvaneça, levando consigo o registro do que foi empenhado, a atuação dos
participantes e o conhecimento adquirido.

Se os centros culturais não foram pesquisados, a ação cultural, ou seja, as formas e os conteúdos da
prática cultural, foram menos ainda. É importante refletir sobre a maneira como a proposta cultural, mediada
pelos agentes culturais, pode acontecer para os frequentadores de um centro, e se este tem a intenção de
desenvolver atividades que possam trazer subsídios que colaborem para ampliar a percepção social,
psicológica e política dos indivíduos. Portanto, torna-se necessário saber o que se considera ação cultural, o
que foi ativado durante o processo e qual o motivo de realizá-la, sendo estas questões debatidas junto às
possibilidades de atuação dos centros culturais. A bibliografia apontada no final colaborou para este estudo e,
como se trata de um tema interdisciplinar, contou-se com conceitos nas áreas de pedagogia, filosofia,
organização institucional e teoria da pós-modernidade, entre outros.

Nota da edição original: A dissertação foi iniciada em Setembro de 1989 e terminada em fevereiro de
1991. Este período foi usado nas pesquisas, nos estudos e na redação. As pesquisas no Centro Cultural São
Paulo e entrevistas a funcionários foram realizadas principalmente durante os meses de outubro e novembro
de 1989; o trabalho no Museu Lasar Segall concentrou-se nos meses de novembro e dezembro de 1989 e no
Centro de Lazer Sesc Fábrica da Pompèia em maio e junho de 1990. As mudanças da política institucional
ou as substituições de funcionários entrevistados ocorridas após este período foram pouco consideradas.
Nota da edição de 2015: Esta versão da dissertação de mestrado Três Centros Culturais na Cidade
de São Paulo mantém as mesmas divisões e o mesmo texto - sem qualquer alteração ou acréscimo e não
sendo considerada a nova ortografia - do trabalho apresentado à ECA em 1991. Como a fonte foi alterada,
talvez apareçam erros que não foram detectados nas revisões efetuadas. As imagens foram substituídas e
são mais atuais. Para a versão na internet, agradeço especialmente a colaboração de Michael Howard e
Nelson Kon.

Acesso ao trabalho completo