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MACACO ABRE A BUNDA, COMO ERA BOA MINHA VENTURA (dos santos)

por Leandro Nerefuh

 

Quando o oceano atlântico e o mar mediterrâneo se empurram e se apertam para passar pelo estreito de Gibraltar, extraordinárias correntes subaquáticas se formam, criando assim um imenso campo energético e, segundo consta, dois pilares de pedra emergem do turbilhão de água salgada abrindo assim um portal encantado, uma passagem no espaçotempo.

 

 

Segundo reza a tradição afro-caboclo-indígena-amazônica de Mina, por ali teriam passado e desaparecido do mapa as princesas turcas Mariana, Herondina e Jarina. Fugidas da primeira cruzada cristã, no século XII, as princesas embarcaram para a Mauritânia, mas na altura do Estreito de Gibraltar atravessam o portal e se transportam para uma outra dimensão, onde não existe morte, envelhecimento, dor nem ódio. Para então, quatrocentos anos depois, reaparecerem no litoral Paraense, começando assim um trajeto por onde cruzariam com várias famílias da Encantaria Amazonense, desde os clãs indígenas comandados por Velho Caboclo até os nobres encantados de Dom Sebastião, e os Orixás Africanos que acompanharam os primeiros escravos negros desembarcados nas costas do Grão-Pará e Maranhão, em meados dos século XVII.

 

Tambor de Mina - São Luís (MA)


Para Darcy Ribeiro, o povo mestiço latinoamericano teria seu fundo mais ancestral na latinização da península ibérica engendrada por soldados romanos, há mais de dois mil anos, que teriam então “saltado o mar” e chegado na América “falando a lingua dos romanos”. Nesse sentido, a América é vista por Darcy como uma espécie de Nova Roma por direito e por destino, a medida que a terra fosse distribuida para quem trabalha e que as cidades fossem de fato a morada dos homens. Darcy segue uma ideologia de processo histórico, do positivismo ao marxismo, e projeta no horizonte do novo mundo sua visão paternalista de ‘transfiguração étnica’ que resultaria numa comunhão nacional mestiza - em que todos vão ser Brasil.

 

 

Vemos na capa da Instauratio Magna (A Grande Restauração) de Francis Bacon, publicada em 1620, a imagem de uma nau passando pelos chamados pilares de Hércules, deixando para trás as águas do Mediterrâneo para ganhar o Atlântico. A cena marca um momento de mudança para o Mediterrâneo, cujos centros de poder estavam movendo sentido oeste, para Portugal e Espanha; e também para as Américas, cujo ‘destino’ colonial já parecia estar traçado. Curiosamente, a perspectiva da imagem nos coloca na margem de cá do atlântico, olhando para o leste, como se olhássemos para trás no tempo, vemos a nau se aproximar ao momento de primeiro contato. Enquanto na antiguidade os pilares de Hércules marcavam o fim do mundo conhecido, sinalizando o Non Plus Ultra, que dizer, além desse ponto não há mais nada e ninguém deve passar, Francis Bacon promove um novo tipo de investigação empírica que que perimitira um maior conhecimento do mundo, análoga aos avanços da exploração marítima que marcou a época - ‘muitos viajarão e o conhecimento será aumentado’.

 

Estimativas atuais sugerem que a colonização das Américas tenha causado a morte de 50 milhões de ameríndios. Some-se a isso o tráfico de 13 milhões de africanos escravizados e embarcados para as Américas, e temos uma noção do genocídio humano e climático acarretado por essa passagem.

 

 

O filósofo Boaventura de Sousa Santos duplica essa imagem de dois pilares que marcam a passagem entre-mundos. Ele argumenta que os dois pilares que caracterizam a modernidade ocidental constituem um paradigma fundado na tensão entre a regulação e a emancipação social. Esse paradigma visível fundamenta todos os conflitos modernos, tanto no relativo a fatos substantivos como no plano dos procedimentos. A constante fricção entre regulação e emancipação social abre (ou fecha) a passagem para o ocidente. Enquanto, subjacente a esta existe uma outra, invisível, formada por dois pilares que caracterizam o paradigma da empresa colonizadora: aproriação e violência. Eis a passagem aberta a força nos territórios colonizados, tanto na era das explorações marítimas quanto na atual era do capitaloceno. Vide extrações de minérios, construções de infra-estrutura duvidosa (como mega-hidrelétricas na Amazonia), o avanço destruidor do agrobusiness e a expansão da cultura bíblia, boi, bala, por exemplo. Esse duplo portal funciona de maneira simultânea e interdependente, em que apropriação, violência, emancipação e regulação interatuam em diversas escalas e fundamentam os conflitos globais-ambientais.

 

Periódico Permanente é a revista digital trimestral do Fórum Permanente. Seus seis primeiros números serão realizados com recursos do Prêmio Procultura de Estímulo às Artes Visuais 2010, gerido pela Funarte.

 

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