Texto sentido

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Mobiliário Urbano
As pessoas que habitam os espaços públicos transformam tanto a elas mesmas quanto o lugar onde estão inseridas. Refletindo na modificação e nas dinâmicas das paisagens, esses processos se dão em lugares e de formas distintas, desde a apropriação de prédios abandonados e em desuso até a ocupação dos espaços de circulação como praças, calçadas, pontes e viadutos. Essas experiências estabelecem encontros entre pessoas e lugares, mas também geram confrontos quando se busca a anulação do corpo. A segregação urbana revela-nos como as cidades se organizam e se transformam ao colocarem-se como representações da alteridade. Percebemos sua presença nas diferenciações arquitetônicas, nos materiais empregados, nas parafernálias eletrônicas de segurança e nos enclaves fortificados . Algumas dessas formas de segregação se impõem de forma silenciosa nos espaços da cidade por estarem impregnadas de valores simbólicos que buscam anular e excluir a experiência do corpo. No momento em que o movimento moderno esteve colado ao racionalismo, ao desenvolvimento científico e tecnológico, modificou-se consideravelmente os padrões industriais que exigiram as transformações e ordenamentos dos espaços públicos a fim de atender as linhas de montagens das cidades através da setorização de seus usos, serviços e atividades, homogeneizando-se as técnicas construtivas . Esta postura demonstrou as estratégias preteridas pelos modernistas, sobretudo se levarmos em conta o contexto sócio-político que estávamos vivendo, sendo Brasília um exemplo dessa segregação imposta pelo desenho urbano. Por essa razão apontamos para as transformações do espaço urbano e nas estratégias desenvolvidas hoje pelas técnicas projetuais em arquitetura, urbanismo e design como meios de apreensão ou exclusão do corpo no corpo da cidade. Mas, de que forma se manifestam hoje essas formas de exclusão? Quais os instrumentos ou dispositivos utilizados no tempo presente? Para responder a essas perguntas é pertinente observarmos que a cidade de São Paulo se agigantou, ou melhor, inchou durante os últimos anos ao adotar o modelo de modernização e industrialização descomprometido com os interesses sociais. Modelos estes que desencadearam processos de anulação do corpo e da urbanidade ao recriarem suas espacialidades em função do capital estrangeiro e das elites que se afirmavam ao erguerem seus monumentos-arquiteturais tal como a Avenida Paulista que se impunha mundialmente como imagem-referência da modernização ao sobrepor ou mesmo suprimir as imagens individuais dos cidadãos para forçosamente colocar-se como imagem pública representativa da cidade - ou como símbolo do crescimento e desenvolvimento estabelecido, que transformou não somente a paisagem urbana, mas, sobretudo a dinâmica da cidade e as relações sociais. (SANTOS, 2007, p.54). O deslocamento do “desenvolvimento” fora impulsionado ainda para outras direções, no pós 80 para a Avenida Brigadeiro Faria Lima e hoje presenciamos a repetição desses cenários nas cercanias da Avenida Luiz Carlos Berrini, com suas arquiteturas-fortificações que aos poucos engolem as comunidades vizinhas que ainda resistem à avalanche do poder econômico e dos empreendimentos que vão se erguendo entre os quintais das casas e casebres das famílias do Real Parque e do Paraisópolis que ali estão a enfrentar verticalizações, muros, grades, seguranças privadas e câmeras de controle. São construções que desafiam os céus, arranhando as nuvens para se imporem não somente como arquitetura, mas, sobretudo como símbolo de poder. FERRARA (2008) ao relacionar a verticalização como valor simbólico do poder e da mídia de uma cidade, nos apresenta que esses pontos co-existem entre si para fazerem-se referências ao domínio de um grupo frente a outros. Dessa forma, ela nos afirma que a verticalidade de uma cidade e sua skyline, estão associadas a uma arquitetura que se faz mídia para estabelecer seu domínio. Assim, as construções nas cidades se impõem desnudando ou revelando a desagregação social presentes em seus planejamentos urbanos. Mobiliários e equipamentos urbanos Os mobiliários e equipamentos urbanos (pontes, praças, calçadas, ruas, passarelas, pontos de ônibus... etc.) tem dentre suas funções a de servir aos cidadãos e usuários da cidade, indicando, informando, facilitando fluxos, encurtando caminhos, provocando encontros, criando espaços de convívio e socialização ou simplesmente protegendo. No entanto, na contemporaneidade, esses mobiliários e equipamentos têm estabelecido o controle do corpo e a desumanização do espaço ao modificar as paisagens da cidade. Esses espaços públicos modificados retiram da população o livre arbítrio nas escolhas e formas de interação e comunicação com a cidade, reforçando as desigualdades ao gerarem “um espaço público não-democrático ”.Para Santos (2007) a tecnologia transformou sobremodo a urbanidade, o homem se desnudou modificando-se velozmente a ponto de mal perceber a brutalidade desse avanço tecnológico e [..] converteu-se no objeto de uma elaboração científica sofisticada que acabou por subverter as relações do homem com o meio, do homem com o homem, do homem com as coisas, bem como as relações das classes sociais entre si e as relações entre as nações. (p.16) Heidegger ao discorrer sobre a ‘essência da técnica’ a um grupo de engenheiros da escola técnica de Munique em 1953 afirmou que a técnica é tanto um meio para se alcançar um fim, quanto algo inerente à essência humana e que ambas as definições se complementam entre si assim ele descolou a técnica de sua essência, tomando como técnica, aquilo que permite a experimentação dos limites humanos e a sua essência como - instrumentum para o desocultamento da vontade – do domínio, onde a essência da técnica nos levaria à verdade do ser. Traçando um paralelo aos questionamentos levantados até o momento em relação aos mobiliários e equipamentos urbanos na cidade de São Paulo, poderemos observar que o desenho, a técnica projetual em arquitetura, urbanismo ou design, enquanto tecnologia desenvolvida para materialização da arquitetura das cidades leva em sua essência valores simbólicos que buscam através de seus códigos, apreender, ordenar ou excluir o corpo. Podemos observar até aqui que independente das formas de exclusão presentes na cidade, a sua materialização depende de um desígnio, de uma técnica e/ou tecnologia específica para ser praticada. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES, Otilia B. Fiori. Urbanismo em fim de linha: São Paulo, Edusp, 2001. CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo: São Paulo, 34/Edusp, 2000. FERRARA, Lucrécia D’alessio. Cidade: meio, mídia e mediação. In Matrizes/revista do programa de pós-graduação em ciências da comunicação da Universidade de São Paulo: São Paulo, ano1. N.2, ECA/USP, 2008. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes,1999. OLASAGASTI, Manuel. Introducción a Heidegger. Madrid, Revista do Occidente, 1967. SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem: São Paulo, Edusp, 2007.