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Acesso e mobilização no espaço acadêmico

Relato Crítico - "Universidade e contexto"
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por Marcos Vinícius S. Magalhães

 

 

 

Com o tema “Universidade e contexto”, a mesa redonda realizada na tarde do dia 10 de maio de 2021 e transmitida por meio do canal do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), no YouTube, reuniu o artista Antoni Muntadas, o epidemiologista e ex-reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho, a biomédica e vice-presidente do ABC, Helena Nader, o arquiteto, curador e professor da FAU-USP, Guilherme Wisnik e o filósofo e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, o qual foi responsável pela moderação da mesa. Também estiveram presentes o diretor do IEA-USP, Guilherme Ary Plonski, e o professor Martin Grossmann (ECA e IEA-USP). Neste momento inicial de diálogo, Antoni Muntadas ressaltou sobre a importância de compreender o contexto para a articulação do trabalho. Tal como a exposição em São Paulo, buscou-se, por meio das mesas redondas, articular uma relação dialética para a ativação e cooperação do projeto "About Academia", em que o contexto brasileiro foi tomado como pano de fundo para o desenrolar do debate proposto.

 

Sob um apontamento inicial, para Renato Janine Ribeiro um aspeto pertinente para se pensar a universidade seria aquele relacionado à assistência estudantil, o qual contribui para a manutenção dos/as estudantes nesses espaços. Ao pensarmos nas relações entre a universidade e a sociedade, pode-se pensar na dualidade entre tal instituição e o sentido empresarial atribuído a ela em meio às diversas instâncias. Contudo, a relação com o contexto social, assim como problematizado por Ribeiro, não deve se restringir à sua relação com a empresa, mas numa relação direta com as diversas camadas e agentes sociais. Ribeiro ainda exemplifica, ao mesmo tempo, o sentido simbólico da distância entre a liderança da Universidade de São Paulo e os/as estudantes, cuja indumentária (terno e gravata), adotada como um artefato a ser utilizado pelos representantes na reitoria da instituição, parece se contradizer com o seu público, evidenciando o sistema burocrático em torno dessas aproximações. Semelhantemente Ribeiro, em sua experiência com as universidades, relaciona inclusive o modo como tais líderes são escolhidos/as, e como as diversas agendas políticas estão atreladas, ou não, à especificidade dos diferentes públicos. Assim, pelo viés do avanço da universidade, deve-se buscar a sensibilização pelos reais problemas e necessidades da sociedade, ao mesmo tempo em que busca-se compreender o modo como os projetos e ações são articuladas em consonância com o futuro que se almeja alcançar.

 

No trânsito dessa discussão a biomédica e professora Helena Nader lembra, no momento da sua fala, as circunstâncias impostas pela pandemia e traça uma relação inicial sobre as consequências deste contexto e o real papel da universidade. Ainda, Nader nos chamou atenção para o modo como as universidades se comprometem com a autoavaliação e como se envolvem com a agenda pública. Nessa perspectiva, houve a reflexão a partir das seguintes perguntas: Em uma universidade plural, para onde estamos caminhando? Do ponto de vista das assistências aos/às estudantes, como se dão as políticas de afirmação social e de que modo, no contexto da pandemia, reforçam a permanência desse público na universidade?

 

Um outro apontamento compartilhado pela professora, partindo das discussões do projeto proposto por Muntadas, diz respeito ao modo como se produz o conhecimento acadêmico e, quem é o/a professor/a que assume as multitarefas que exigem as instituições universitárias. Ademais, deve-se problematizar que o conhecimento não é desenvolvido por vias únicas e tal diversidade precisa, de fato, ser reconhecida em meio aos diversos instrumentos de avaliação no contexto das universidades brasileiras. Assim, dentre as perguntas e reflexões que foram sendo apresentadas, como se estabelece o diálogo com a sociedade e qual é a real finalidade da instituição universitária, sobretudo enquanto característica de um ensino público? Nesse sentido, Renato Ribeiro propõe atravessamentos de modo a pensar a universidade pública como esse espaço de afirmação, compreendendo que essa instituição, em seu ethos, possa levar os alunos e alunas a entenderem acerca da responsabilidade de sua cidadania, se comprometendo com os bens públicos.

 

Ao mobilizar a sequência do debate, o professor Naomar de Almeida Filho trouxe uma apresentação baseada na exposição "About Academia", buscando discutir sobre os futuros possíveis da universidade na América Latina, que se desdobram a partir do entendimento da educação como um direito político especial o qual possibilita a conquista e a articulação de outras ações e direitos. Nessa perspectiva, pensando em um âmbito geral da educação torna-se importante compreender temas que considerem, dentre tantos aspectos e competências, a produção de conhecimento e sua relação com a pesquisa e a criação, bem como o seu comprometimento com a diversidade humana e com as temas que orbitam o respeito ao planeta e suas naturezas.

 

Dentre alguns autores, Almeida Filho cita Boaventura Souza Santos, professor e pesquisador português, o qual nos ajuda a compreender o lugar da universidade no ocidente e os seus atravessamentos em uma sociedade colonizada. Ao pensarmos sobre essa realidade, deve-se discutir acerca do modo como o conhecimento intelectual foi sendo legitimado e influenciado pelo viés eurocêntrico. Nessa consonância, numa referência a Boaventura Souza Santos, deve-se pensar, em meio ao contexto latino-americano, em uma diversidade epistemológica, numa abertura para a inclusão de sujeitos e suas matrizes culturais em um nível que o respeito e a admiração sejam fundamentais. Ao refletir sobre esses aspectos, Almeida Filho sugere o pensamento a partir do termo “Nagô", enquanto referência intelectual e de abertura para as diferenças no contexto das universidades. Sob tal perspectiva, ao provocar a reflexão acerca do processo de formação, a língua iorubá parece ajudar a pensar as relações humanas e a ecologia dos saberes, compreendendo que “Nagô” representa etnias africanas de grande diversidade linguística, cuja cultura e história são marcas fundamentais. Assim, o desafio de se pensar o novo em meio a esses processos poderá contribuir para novas experimentações e diálogos entre os diversos contextos e realidades.

 

Guilherme Wisnik, na sequência, reconhece a pertinência do projeto de Muntadas dentro de um processo essencialmente dialogal e de tradução, trazendo apontamentos que antes não haviam sido levantados por esta mesa redonda. O professor e arquiteto acabou por atentar-se para uma das questões primordiais apresentadas pelo projeto "About Academia", a qual diz respeito aos atravessamentos da universidade com o espaço físico. Sob um olhar para o campo da arquitetura, Wisnik se voltou para a discussão em torno do sentido de público e privado, refletindo sobre o sentido pedagógico dos edifícios e construções que se organizam em meio ao espaço urbano. Wisnik, no momento da sua fala, apresentou imagens que dialogavam a partir da estrutura rígida das instituições bem como no modo como os/as estudantes, nas universidades, acabavam por ressignificar e intervir nesses espaços e nas relações com os diversos objetos e mobiliários. Em meio a essas interlocuções, pode-se pensar em um processo de resistência em que os/as estudantes acabam por assumir um lugar de ativismo, reivindicando o seu lugar na universidade e sua ocupação em meio à cidade. A partir do reconhecimento de edifícios e projetos que caracterizam o espaço urbano e, sobretudo a universidade, buscou-se problematizar acerca de uma pedagogia da própria arquitetura que, tal como no contexto universitário da USP, sugere o acolhimento das multidões, da coletividade e da diversidade.

 

Por fim, na ocasião do compartilhamento desta mesa redonda, uma pergunta foi levantada pelo público, a qual buscou refletir sobre o gerenciamento que a própria universidade se debruça ao lidar com as diferentes epistemologias e modos de organização do conhecimento. Assim, no escopo das reflexões que foram sendo desenvolvidas e, no encontro da questão que foi levantada, tal reconhecimento e legitimidade pelo viés acadêmico quanto à diversidade do conhecimento parece estar relacionada à forma como a própria instituição lida com o seu público e como mantém, por exemplo, suas políticas afirmativas. Em meio a esses atravessamentos Guilherme Ary Plonski, que acompanhou a mesa redonda, trouxe uma reflexão que problematiza a dicotomia entre universidade e sociedade, compreendendo as lacunas e os equívocos que colocam a instituição universitária alheia, ou talvez, separada da sociedade. Contudo, tal como abordado por Plonski, a universidade está inserida em um dado contexto social, sendo parte integrante e constitutiva da sociedade e jamais separada dela.

 

Na continuidade da discussão desenvolvida, Renato Janine Ribeiro trouxe mais uma vez para a centralidade do debate a temática da desigualdade e da inclusão, e o compromisso ético da universidade. Neste movimento, os integrantes e a integrante da mesa buscaram endossar o diálogo, compreendendo que a universidade deve buscar mecanismos de crítica e autocrítica, entendendo junto à sociedade que a inclusão é uma ação de permanência e de desafios constantes. Tal como as reflexões suscitadas pelo projeto de Muntadas, é importante reconhecer que a universidade pública é um lugar para além de produção intelectual comprometida com a inovação, mas um lugar de produção crítica, de metacrítica social sobretudo. Assim, a partir das reflexões compartilhadas por esta mesa redonda, poderemos reconhecer que se as relações da sociedade com a indústria não dão conta de instituir um olhar crítico e reflexivo, a universidade deve, dentro de uma perspectiva ética e dialógica, contribuir para tal construção e conscientização.

 

Nesse sentido, nos encaminhamentos para a finalização desta sessão e compreendendo que o diálogo proposto não é conclusivo, Martin Grossman nos chamou a atenção para a importância do papel da arte para a discussão que se propôs e, tal como a perspectiva do site specific no trabalho de Muntadas, há uma correlação direta com o espaço e também com os discursos que dali foram sendo forjados. Mais uma vez, se nos voltarmos para o contexto brasileiro como esse lugar específico perceberemos a desigualdade social estruturante da nossa sociedade e, de algum modo, o diálogo com a universidade acaba por perpassar pela dinâmica patrimonialista que restringe a interação entre os públicos. A partir da temática "Universidade e contexto” uma alerta ascende quanto à responsabilidade das instituições para melhor acolherem o seu público, não apenas no tocante ao diálogo com os cursos de formação, mas quanto ao compromisso ético de fazer ser ouvida, em meio à estrutura da universidade, a polifonia evidenciada pelas diferenças e modos de construção do saber.

Dentre as reflexões apresentadas, o espaço físico pareceu potencializar uma discussão que perpassa, ainda, o contexto da educação básica. A sala de aula, bem como a organização de suas mesas e cadeiras, por exemplo, acabam por sinalizar uma herança acrítica em torno do processo de escolarização, cujo/a professor/a, em sua configuração de mestre, acaba por assumir a centralidade da cena pedagógica. O diálogo, tão caro no processo de aprendizagem, parece ficar comprometido diante da rigidez que impera no interior das escolas. Sob a luz do exemplo que o filósofo Renato Janine Ribeiro nos trouxe, ao ilustrar a distância que as autoridades universitárias estão dos/as estudantes a partir do seu comportamento e modos de se vestir (e estes atrelados às relações históricas e sociais de poder estabelecidas), a sala de aula, em sua tradição, acaba por evocar quilômetros de distância entre professores/as e seus alunos/as. Assim, ao compreendermos a necessidade de rompermos com a lógica de um conhecimento compartimentado e hierarquizado, a modo como encaramos o espaço físico de nossas instituições precisa ser problematizado e estudado sob a lógica de uma perspectiva cada vez mais dialógica e inclusiva. Nesse sentido, cabe considerar o pensamento de Paulo Freire diante de uma prática educativa cada vez mais relacional. Dentre as aberturas para a reflexão que aqui foram apresentadas, vale nos voltarmos rapidamente para as contribuições de Freire, não apenas neste momento histórico em que celebrou-se o seu centenário, mas principalmente quanto à importância dada em seu pensamento quanto ao contexto social dos/as estudantes para a articulação das práticas pedagógicas. Ao longo da vasta obra de Freire, a começar pelo livro publicado em 1967, “Educação como prática da liberdade” compreenderemos sobre a importância de pensarmos em uma educação que oportunize a conscientização e a participação social. Sob esses aspectos, o desenvolvimento e a adaptação de espaços físicos que mobilizem essas ações e práticas muito tem a acrescentar para o futuro que se espera. Certamente que, uma turma de alunos e alunas organizados/as em fileiras e um púlpito de acomodação do trabalho do/a professor/a nada diz sobre um processo de ensino e aprendizagem permeado pelo diálogo.

Tais como as contribuições apresentadas por esta mesa redonda, cabe reforçar a pertinência da fala do arquiteto Guilherme Wisnik, que apontou para a necessidade de se pensar em espaços cuja vivência universitária seja acolhida em sua pluralidade. Desse modo as relações de uma universidade entrelaçada com o contexto parecem se firmar ao compreender o protagonismo dos/as estudantes. As vozes e corpos imbricados em meio ao espaço acadêmico parecem evidenciar a diversidade epistemológica e novos modos de produção e publicização do conhecimento.

Em consonância desses aspectos, poderemos nos voltar para a necessidade de manutenção dos programas de assistência estudantil e quanto à defesa de maiores e melhores políticas de financiamento do trabalho de criação e pesquisa dos/as estudantes. Contrariamente ao sucateamento da educação, conforme temos acompanhando nos últimos anos no contexto brasileiro, a manutenção de melhores condições para nossos alunos e alunas é uma questão primordial para a sobrevivência da universidade, em que a pluralidade emerge não apenas ao considerar os diversos meios em que vivenciam e participam os/as alunos/as em suas comunidades, mas sobretudo no modo como a universidade é acessada, ocupada e transformada. Nesse lugar de reflexão, nos lembremos mais uma vez de Paulo Freire acerca do seu trabalho com a comunidade, mobilizando o contexto social (compreendido em sua pluralidade) para pensarmos nas perspectiva de acesso à escola e, no nosso caso, à universidade.

 

 

Referência

 

FREIRE, Paulo. Edução como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.