Desde STEM & STEAM até a Universidade Liquida
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Relato por Ana María Bernal Cortés
O trabalho de Antoni Muntadas nos faz pensar a partir daquilo que ele chama de "artefato antropológico", é o lugar das artes em relação aos outros campos do conhecimento presentes na Universidade. A Universidade como um lugar onde diferentes campos de estudo e formas de conhecimento se encontram, é questionada nesta ocasião, para pensar como as artes estão em relação a ciência, matemática, tecnologia e engenharia; e dizer, como STEM1 se encontra com STEAM2.
Ao contrário das mesas redondas anteriores, a intervenção de Martin Grossmann nesta mesa não foi do papel de mediador, mas sim como participante. Portanto, o Prof. Ary Plonsky assumiu a mediação da mesa redonda, permitindo discutir sobre os aspectos mais valiosos das mesas anteriores ao redor da About Academia. Destacou a pluralidade de vozes, a qualidade dos convidados e suas intervenções e agradeceu ao Prof. Grossmann pela construção e mediação destes exercícios de ativação. Além disso, deu a palavra ao Prof. Antoni Muntadas, que descreveu os aspectos mais valiosos das mesas redondas anteriores ao redor da obra About Academia. Antoni Muntadas também agradeceu a capacidade da equipe de gerar um exercício virtual, apesar da crise pandêmica, onde também foi possível conseguir ativar as mesas de discussão, o que deu sentido a este artefato dentro da estrutura de cada um dos contextos, aplicando as reflexões a cada um dos modelos de Academia e Universidade, e destacando que o sucesso do exercício residiu precisamente em uma ativação situada.
A professora e pesquisadora Soraya Soubhi Smaili, que foi reitora e depois exerceu cargo diretivo na UNIFESP3, referiu-se à crise da Universidade pública brasileira, "a crise da educação no Brasil não foi uma situação de crise, foi um projeto"4, como indicou Darcy Ribeiro na época. Destacou-se sobre o crescimento do ensino superior no Brasil nos últimos anos em termos de demanda e oferta, em contraste com a crise financeira das universidades, e as dificuldades em obter recursos para seu funcionamento. Além disso, ressaltou que os aspectos delineados por Muntadas em About Academia, como são: a tensão entre Universidade/Academia; a liberdade de expressão; a tensão entre a universidade pública e a privada; a relação autonomia e heteronomia; as dicotomias entre o poder econômico, os recursos e o financiamento; e por último, a tensão entre o trabalho acadêmico e envolvimento dos académicos na sociedade; Estes são aspectos que não apenas movem e mobilizam a reflexão no contexto da Universidade Norte-americana, mas ainda são válidos e mobilizam grande parte da reflexão dos professores e pesquisadores universitários da Universidade Sul-americana.
A professora Smaili, além de fazer uma radiografia qualitativa e quantitativa que revela o estado atual da Universidade Brasileira, propôs alguns desafios para a Universidade pública, concentrando-se nos seguintes:
- A Universidade do século XIX deve ser uma universidade permeável.
- A Universidade deve estar aberta e sem muros, comprometida com os problemas das cidades.
- A Universidade acaba sendo uma estratégia de especulação imobiliária para o ambiente urbano onde ela está localizada. É importante dar maior relevância à sua infraestrutura de pesquisa e ensino, do que à construção dos próprios edifícios.
Diante desses desafios, ela mencionou como a UNIFESP, durante os períodos em que exerceu cargos de direção, conseguiu uma importante expansão, passando de uma Universidade com 5 cursos dedicados às Ciências da Saúde, a ter 54 programas, entre eles também as artes. Destacou o papel que desempenhou como reitora na abertura de novos programas em cidades e áreas de São Paulo que eram consideradas marginalizadas. Também destacou os desenvolvimentos democráticos e participativos que ela dirigiu ou nos quais participou; Salientou as mudanças que trouxe como mulher, gerando situações que ativaram a participação das mulheres nos órgãos colegiados da UNIFESP, e destacou como seu trabalho contribuiu em grande parte para que as mulheres fizessem parte da maioria dos órgãos encarregados de pesquisa e de ensino, mas também de como elas eram a maioria dos estudantes, demonstrando assim a capacidade das mulheres de liderar a construção e a disseminação do conhecimento científico, em uma realidade acadêmica e científica que normalmente é cooptada pelos homens.
O professor Marcos Buckeridge iniciou sua intervenção tentando estabelecer relações entre a esfera estética e a prática acadêmica. Como cientista natural preocupado com o território e a paisagem, ele começou com esta reflexão com o objetivo de destacar a ligação entre a arquitetura dos espaços acadêmicos e a produção de conhecimento. Apesar da tensão apresentada por Muntadas - que se aplica a um grande número de instituições de ensino superior - e retomada anteriormente pela professora Smaili, (onde disserta sobre uma evidente correlação entre a construção acadêmica, a gentrificação e a especulação imobiliária nas cidades com importantes centros de estudos superiores), o prof. Buckeridge destacou que a infraestrutura é tão importante para a pesquisa e para a prática acadêmica, quanto a arquitetura acadêmica é urgente e necessária para uma boa prática universitária, "A arquitetura é uma ponte entre a arte e a engenharia. A arquitetura é tão importante quanto a infraestrutura", diz ele.
Posteriormente, ele se referiu ao conceito de Polimatia que Peter Burke propõe em sua obra "O Polimata". Define o "Polímata como alguém que tem uma banda de jazz e ao mesmo tempo é um cientista, e ao mesmo tempo um esportista", esta característica está presente na maioria dos intelectuais até o século XIX e levou à existência da especialidade do século XX. Este conceito descrito acima, remete a relação, que em um momento da história, existiu entre ciência e um conhecimento múltiplo e diversificado. O professor Buckeridge, enfatizou como a estrutura acadêmica está organizada de acordo com as especialidades e os departamentos das faculdades são o lugar burocrático delas. Ele teceu esta reflexão com o objetivo de repensar a necessidade de voltar ao Polimata, porque, como ele mesmo assinalou, no século XXI já entramos na era da interdisciplinaridade.
Outra contribuição do professor Buckeridge foi destacar a tensão entre a pesquisa teórica, realizada na academia, e a pesquisa prática que é funcional para a solução de problemas na sociedade. Ele apresentou um modelo de metodologia de pesquisa que pode ser aplicado tanto à ciência quanto às artes, sugerindo que o processo criativo não é muito diferente em ambos casos. A pesquisa orientada pela teoria pode se tornar pesquisa aplicada, que é o que fornece as soluções. "Lá, proponho um triângulo que é chamado de sopa primordial, onde as soluções e aspirações flutuam e apontam para problemas que um grupo social precisa resolver". Assim, ele não só se referiu às perspectivas de pesquisa interdisciplinar, mas também defendeu a necessidade de estabelecer um vínculo mais dialógico entre academia, sociedade civil e decisões de política pública. Indicou que nos países onde as decisões de política pública estão centradas nas pesquisas realizadas pelas universidades, estas permitem um melhor equilíbrio e a sociedade avança de uma forma melhor. Porque a sociedade está sempre apontando os diferentes problemas, que em muitos casos correspondem às controvérsias e questões de pesquisa das universidades.
Como fazer uma avaliação real de como a universidade pode contribuir e influenciar na vontade política dos governos? Seria uma questão interessante para discutir.
Um aspecto adicional que o professor Buckeridge apontou, é a relação entre meio ambiente e cultura, desenvolvida pelos pais de o que é conhecida como ética socioambiental, um exercício que surgiu graças às contribuições de cientistas como Arthur Tansley (1935) e o conceito de ecossistema; Norbert Wiener e Ludwig Von Bertalanffy, do pensamento sistêmico; o professor Paulo Nogueira Neto, que criou um sistema para olhar o meio ambiente no Brasil; Eugenio e Howard Odum; Donella Meadows e Rachel Carson; esta última, que com base na observação de cascas de ovos de aves, conseguiu encontrar uma ligação entre a implosão prematura dos ovos e o uso de um tipo de inseticida pelas comunidades camponesas. Ele destacou que estes pesquisadores e cientistas forneceram a base para o que se chama ambientalismo moderno, o que, com a consciência dos ciclos biogeoquímicos, nos deu clareza sobre as repercussões das ações humanas em relação a outras espécies, e vice-versa. Esta ética socioambiental tem sido fundamental, por exemplo, para o exercício das diferentes ações para deter a mudança climática, entre elas não só o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), mas também as conferências sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Sua apresentação destacou as contribuições que ele tem sido capaz de desenvolver a partir da Academia em diferentes momentos, como para dar um exemplo daquela articulação necessária entre a pesquisa acadêmica, as políticas públicas e a sociedade.
Finalmente, ele apresentou um gráfico para entender como a Universidade Brasileira está organizada em termos do governo interno, estrutura que é útil para estabelecer semelhanças e distinções com a Universidade Norte-americana na qual está baseada na experiência de About Academia. Neste gráfico, expõe-se como os diferentes poderes do público se articulam com a Universidade. Ele reconheceu que ainda existe uma certa independência e liberdade de pesquisa na Universidade brasileira, ou pelo menos nas Universidades públicas de São Paulo, onde o professor trabalha. Ele concluiu se perguntando, a partir desta estrutura, se não é possível pensar a universidade como um microcosmo da sociedade brasileira? Ou ainda, se a sociedade é um macrocosmo do que acontece na universidade?
O professor Ary Plonski agradeceu aos professores por sua intervenção, e ao final ele fez uma pergunta adicional que colocou novamente sob a mesa a relação entre financiamento e academia, tema que está presente também na obra de Muntadas. O Prof. Plonski dirigiu a pergunta a professora Smaili: como encontrar alternativas para o financiamento da Universidade, para que, apesar da redução do orçamento, a Universidade possa continuar com sua independência?
Em sua resposta, a professora enfatizou que esta importante questão também merece ser colocada em relação ao nosso presente: qual será o impacto da pandemia no ensino superior? Perguntou a mesma.
Ela enfatizou a necessidade de que as eleições nos diferentes níveis de governo revejam as questões programáticas relacionadas à educação e o ensino superior; e também indicou que deve haver maior coesão, protagonismo e união de esforços entre a academia e a população civil, para que a Universidade possa obter os recursos necessários para o ensino, a pesquisa e a projeção social. Compreender a relevância e a confiança que a população civil tem na universidade, na pesquisa e nas ciências que são realizadas no coração da universidade brasileira.
Por outro lado, ela lançou uma espécie de vocação para a Universidade do século XXI, indicando que a Universidade deve se tornar cada vez mais permeável.
O professor Marcos Buckeridge, que retomou este último ponto levantado pela professora, propôs a metáfora da universidade líquida. Ele ressaltou que este exercício da universidade porosa, ou líquida é evidente na gestão implementada pela professora Smaili em seu trabalho na UNIFESP. Ele ressaltou que a universidade brasileira pode corresponder a este modo universitário líquido, que permeia a sociedade e está em diálogo com os territórios; pelo menos é isto que ele mencionou em relação ao que está acontecendo em São Paulo. Ele concluiu dizendo "Deixar de distinguir as artes da ciência, e da política, precisamos pensar nas coisas de uma maneira verdadeiramente polimática. É por isso que coloquei este ponto, do século XXI no caminho da interdisciplinaridade".
Finalmente, o professor Antony Muntadas agradeceu aos dois professores convidados por suas intervenções, e mencionou que para ele a contextualização destas situações sugeridas por seu trabalho em relação a Universidade Brasileira era muito relevante; enfatizando que o resultado deste exercício de virtualidade era inesperado e de alguma forma o identificou com uma caminhada peripatética, mas virtual.
Como conclusão, as intervenções dos professores convidados foram verdadeiramente mobilizadoras, duas realidades institucionais na cidade de São Paulo deram uma visão do que se espera da universidade pública. Em suas intervenções, várias das tensões que aparecem no trabalho de Muntadas foram evidentes, como foi indicado anteriormente. A luta por financiamento e independência epistemológica é uma constante nas disputas universitárias; o mesmo ocorre com o questionamento de como uma instituição de ensino superior responde ou não, às necessidades de um espaço social com a pesquisa e a ciência que desenvolve, pois o impacto é medido a partir de uma noção mercantilista e capitalista do conhecimento que não revela a incidência real da Universidade em seus territórios. É por isso que é relevante o apelo para uma universidade porosa, permeável ou líquida. Não entanto, a tensão arte/ciência da transição da STEM para STEAM foi, um pouco diluída durante toda a conversa, porque a partir da apresentação da professora Smaili, esta relação entre as artes e outros campos do conhecimento foi direcionada para o desenvolvimento institucional da UNIFESP, e de como ela trabalhou na passagem de uma universidade especializada em ciências da saúde para incluir as artes e outros campos do conhecimento na oferta acadêmica. Na intervenção do professor Buckeridge, esta questão sobre as artes e as ciências, apareceu em princípio na menção à esfera estética, quando ele se referiu a esta tenção entre a arquitetura e a academia; foi retomada quando ele se concentrou em falar sobre as metodologias para verificar o impacto da pesquisa nas sociedades. Nesse ponto, ele dissertou sobre a "criação" como fato que pode definir-se tanto na ciência quanto na arte, como uma operação de pesquisa comparável; defende assim a interdisciplinaridade na Universidade, bem como o retorno à polimatia, ou também sua conversão numa instituição "liquida".
1 Sigla inglesa para referir-se a Science, Technology, Engineering and Mathematics.
2 Sigla Inglesa para referir-se a Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics
3 Sigla da Universidad Federal de Sao Paulo.
4 Palavras de Darcy Ribeiro, citadas pela Professora Soraya Soubhi Smaili, durante sua intervenção.






