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Intercontinental Academia: Olhares Intercontinentais para o Dispositivo da Universidade.

Relato Crítico, Mesa 2, Intercontinental Academia
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Relato Ana María Bernal Cortés

A provocação para a segunda mesa de debate em torno da obra de Antoni Muntadas: About Academia, abordou a noção da Intercontinental Academia. A tensão entre o local e o global na academia, as tradições coloniais implícitas na universidade e o Giro Decolonial, além da questão da possível universalidade da universidade contemporânea, são destacadas por Muntadas em sua obra, e aparentemente se enquadram na suposição sugerida pela Intercontinental Academia1. Cabe ressaltar, que na Intercontinental Academia, os pesquisadores convidados como palestrantes estão localizados em diferentes continentes: Mariko Murata (Ásia), Nikki Moore (América do Norte), Érica Peçanha (América do Sul) e David Gange (Europa), e que tanto a professora Moore quanto o professor Gange, têm sido convidados a participar, entre outros pesquisadores, da plataforma da Intercontinental Academia, em anteriores ocasiões.

A professora Mariko Murata, que é também pesquisadora da Universidade Kansay em Osaka (Japão), descreveu na primeira parte de sua apresentação, como as universidades e museus, que surgiram no Japão no final do século XIX (como aconteceu na maioria dos estados-nação) desempenharam um papel de liderança nos processos de modernização e na configuração da ideia de estado; e que também puderam contribuir - neste caso - para a configuração de uma identidade ancestral homogeneizada e, mais recentemente, para desempenhar um papel na descolonização do pensamento. Para a professora Murata o museu é "um ponto de vista para ver e medir culturas no lugar onde elas estão localizadas (...) ou, talvez se possa dizer que é um dispositivo, que exerce um certo poder dentro de um determinado domínio"2. Assim, no contexto desta palestra, essa definição também poderia ser aplicada à universidade.

Murata então, referiu-se a uma das obras de Muntadas, que pergunta precisamente sobre a homogeneização do asiático: Asian Protocols; ela destaca como Muntadas descreve este processo como uma plataforma de discussão, assim como faz com About Academia. Ela, argumenta que há vários artistas contemporâneos que fazem Pesquisa Baseada nas Artes, e que Muntadas talvez tenha sido um dos primeiros. Então, qual é a diferença entre os projetos de Pesquisa Baseada nas Artes e a pesquisa acadêmica, e por que esses tipos de projetos são definidos como arte? Como resposta possível, ela destaca a subjetividade dos processos das artes em oposição com a aparente objetividade de outros campos do conhecimento, e explica como no trabalho de Muntadas, por exemplo, as entrevistas são muito importantes, pois, como o mesmo Muntadas indicou, "as entrevistas revelam o que está escondido"3. Para concluir esta seção, ela se refere brevemente às distinções entre métodos de pesquisa e operações, e como a pesquisa acadêmica (de natureza positivista) pode eliminar ou passar por cima de algumas contradições, ou verificar até mesmo a ponto de responder a controvérsias; ela se refere ao fato de que a passagem das entrevistas para a imagem visual, como no trabalho de Muntadas, encoraja o aparecimento de perguntas de diferentes lugares e para um público diferente. Assim, para concluir, ela propõe alguns casos de artistas que operam nesta perspectiva, como exemplo a obra da artista mexicana Mónica Mayer, El tendedero, e a obra Akatsuki Village Walking Tour proposta para a exposição A ecologia da expressão, na galeria Arts Maebashi , do artista Akira Takayama.

"Os museus são espaços de questionamento ou diálogo (...) por isso questionam a sociedade usando diferentes tipos de mídia; e eu acho que o trabalho de Muntadas faz isso", conclui ela.

A professora brasileira Érica Peçanha continuou como palestrante, e desenvolveu sua contribuição a partir de sua experiência como estudante, professora e pesquisadora, através da seguinte pergunta: O que a Academia e a Universidade historicamente representam? Ela descreveu o que para ela, uma estudante negra das favelas, a Universidade representou em seu momento, "uma instituição de prestígio, de produção de conhecimento", mas também um lugar onde o reconhecimento e a representação dos negros, das mulheres e dos discursos decoloniais eram inexistentes; Em contraste com esta experiência na universidade privada, ela contrapõe a experiência adquirida durante sua pós-graduação na universidade pública, onde ela entendeu o ethos do acadêmico, do intelectual e do pesquisador; e gradualmente percebeu as políticas de inclusão para a população negra, assim como as possibilidades e políticas de apoio para a população mais pobre. Desde sua atuação como estudante de pós-graduação e mais tarde como professora e pesquisadora, ela também descobriu o funcionamento do sistema acadêmico, até a valorização e quantificação da produção de conhecimento, que às vezes vai em detrimento da qualidade e impacto da pesquisa nas realidades em relação aos grupos sociais envolvidos, em favor de números e indicadores. Em seu discurso, várias das questões também abordadas por Muntadas desde a perspectiva dos alunos e dos professores em About Academia I e II aparecem, como são as noções de gênero, raça, situação socioeconômica, a tensão entre centro e periferia dentro do estatuto universitário.

A professora Nikki Moore dividiu sua apresentação em quatro seções: 1ª: Artefatos de ativação; 2ª: não o quê? Mas quem é a academia? 3ª: Artefatos do campus; e 4ª: Quando é a academia? Na primeira seção, a Professora Moore, revisa o trabalho de Muntadas em relação com os aspectos comuns que tem com a obra Manifesto de Julian Rosenfeldt. Em sua análise, ela se refere às características visuais, espaciais e de formato da obra, e enfatiza a multiplicidade de olhares, abordagens e vozes percebidas em ambas obras. Mais adiante, e desde a perspectiva de multiplicidade, fala da obra do artista brasileiro Denílson Baniwa, que em contraponto dos “Manifestos da arte ocidental" explorados por Rosenfeldt na obra Manifesto, permite-nos deter na seguinte reflexão, o que foi feito como artista brasileiro e indígena em relação a como recuperar seu próprio território? O que é reivindicar a propriedade física do território? Como fazê-lo como artista? Como fazê-lo sendo artista no Museu? Moore, traz esse questionamento para a Universidade, ao referir-se ao movimento Black Lifes Matters. E a partir desse exemplo questiona, como respondemos desde a academia a esta necessidade de reconhecer outros lugares de enunciação, outros territórios? Como reconhecemos as especificidades raciais dentro de nossas universidades? Quem são nossas referências, nossos autores, quem são os cientistas? Como assumimos criticamente os estudos de caso?

Em relação à terceira seção ou "Artefatos do campus", a professora Moore revê a forma como a universidade como dispositivo colonial gera uma série de implicações simbólicas a partir de sua própria concepção espacial, forma de construção e arquitetura; tópicos que normalmente apontam para uma notória lembrança branca, ocidental e colonial na qual as tradições, modos de saber e tipos de conhecimento são privilegiados em relação a outros. Ela observa isso ao estudar o plano da Universidade Nacional da Colômbia em Bogotá, elaborado por Leopoldo Rother, e as fachadas do campus do Wake Forest College, na Carolina do Norte; em relação a esta última, ela pergunta o porquê das concepções espaciais de "os Cherokee, os Lumbee, os Surah, os Catawba" que habitavam o território de Wake Forest não foram levados em conta, para pensar como uma Universidades deve ser construída.

Construir uma universidade não se trata apenas de fazer um "logotipo, ou uma imagem, trata-se de criar um ambiente", então a questão do que é a Academia nos leva de volta a seguinte questão: quem é a Academia? E depois: quando é a Academia? Finaliza sua intervenção com uma declaração feita na palestra anterior por Ailton Krenak: "Se apagarmos o século 20, a universidade é uma estrutura colonial. Não perturba ou transforma nada", assim a questão para a transformação da universidade nos envolve a partir de nosso presente, de tal forma que o Moore traz a reflexão de não pensarmos somente sobre quando é a academia, mas sim quando é que nós, como acadêmicos, vamos transformar a academia.

Na última intervenção, feita pelo professor David Gange, ele nos explica como o exercício realizado através da Intercontinental Academia modificou sua atividade como professor, pesquisador e historiador. Para o professor/pesquisador da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, a noção corporativista da Universidade é uma consequência da forma como o ocidente teceu relações com a economia, o mercado e o meio ambiente; para ele, como para a maioria dos teóricos decoloniais. Estas formas são o resultado de uma política colonial, concebida no Iluminismo, que tem mediado e "cooptado nesta ortodoxia do crescimento, do progresso, da lógica econômica convencional (...) as formas de construir, mediar e disseminar o conhecimento". Esta realidade que o professor Gange percebe na universidade contemporânea, o leva a se perguntar sobre outros tipos de exercícios alternativos e criativos de conhecer, fazer pesquisa e socializar o conhecimento; para ele, a economia política que foi implantada na maioria das nações fez desaparecer ou parecer inválidas diferentes formas de entendimento ou conhecimento, "descartando todas as outras culturas como sendo retrógradas". Ele propõe, que é “relevante recuperar a erudição das primeiras nações, as filosofias e ciências indígenas, que deveriam ser reconhecidas a um nível superior”.

Ele volta à sua experiência como pesquisador e às formas pelas quais suas próprias pesquisas e metodologias foram transformadas, reconhecendo este outro conhecimento, múltiplo, proveniente de diferentes atores, de outras lógicas que são anuladas pela oficialidade; recuperando outros significados através das artes (no seu caso, a fotografia), e assumindo um papel diferente com os atores, gerando uma dinamização de sua própria pesquisa. "O caiaque e a câmera falam do significado de ser e viver; da importância da experiência perceptiva, do entrelaçamento elemental entre espécies”; no final de seu discurso, ele disse que "a esperança das artes, humanidades e ciências está em demonstrar a pluralidade de mundos".

Assim, podemos inferir que por trás da proposta do Professor Gange e da forma como o conhecimento é produzido, reconhecido e valorizado na Universidade que a professora Peçanha questionou, estamos falando de uma Universidade cuja Universalidade pode ser entendida como parcial, localizada e ocidentalizada. Isto não só porque as instituições tendem a responder a contextos burocráticos e políticos específicos, mas também porque historicamente a Academia e a Universidade têm funcionado como dis-positivos, que, como Agamben indicou, têm a capacidade de "capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar gestos, comportamentos, opiniões e discursos"4.

Tanto as contribuições da professora Murata desde a reflexão sobre o Museu, a Universidade e as artes como possibilidade de pesquisa; assim como os sistemas de inflexão propostos por Muntadas e outros artistas que configuram dispositivos para dispor e confrontar opiniões sobre determinadas questões; são dados em parte, no reconhecimento de que a Academia tem privilegiado um tipo de logos, ocidental, branco e positivista; Mas eles também estão prontos para reconhecer que, como dispositivo, tem uma grande agência, uma agência que deve ser transformada e voltada para as periferias, para o conhecimento ex/cêntrico, para as localidades e os territórios; a professora Peçanha, por exemplo, enfatizou este ponto em sua intervenção e a professora Moore, avaliou como este exercício é percebido não apenas no invisível, mas também no visível, como nas arquiteturas, nos espaços e na forma como os territórios são moldados.

Na discussão final, talvez a contribuição mais controversa e interessante, tenha sido feita pela professora Moore, que, referindo-se à tensão centro-periferia, propõe que é necessário desconstruí-la, e que o problema reside precisamente no fato de que não é o mesmo falar de centro e periferia a partir do centro, que desde a periferia.

A partir desta última abordagem, é relevante sugerir que talvez tivesse sido interessante, dentro da estrutura do desafio desta mesa redonda, falar de alguma experiência situada, algum exercício que esteja fora das fronteiras do que como ocidentais chamamos “Academia" ou "Universidade". Um desses possíveis exemplos, que poderia ser considerado, é a Universidade Autônoma Indígena Intercultural5, localizada em um dos estados reconhecidos por ser um dos que tem maior número de população indígena da Colômbia e em contínua resistência; onde infelizmente muitos líderes sociais, líderes indígenas e líderes ambientais foram desaparecidos nos últimos três anos. No estado de Cauca (Colômbia), limítrofe com o estado do Huila, estão a Lagoa da Magdalena – mãe do rio que atravessa o país de sul a norte -, está localizado este centro de estudos, onde o conhecimento ancestral (normalmente periférico) está no centro do exercício de aquisição de conhecimento, um conhecimento centrado no território, em resposta a seus habitantes e dado a partir de outras lógicas, que já não são mais liminares, mas sim centrais. Lá, as gerações mais jovens são treinadas em programas como Revitalização da Mãe Terra, Direito Próprio Intercultural ou Bom Viver Comunitário, para citar apenas três dos dez programas existentes.

 

 

 

 

 

1 Segundo Martin Grossmann, é uma plataforma que começou em 2016, como parte das ações da rede de Universidades Baseadas em Institutos de Estudos Avançados (UBIAS); consiste em um intercâmbio acadêmico entre pesquisadores com trajetórias sólidas de duas universidades, localizadas cada uma, em diferentes continentes e contextos culturais; que se reúnem para pensar questões comuns que afetam a Universidade, a sociedade e que podem gerar respostas ou controvérsias nas diversas áreas do conhecimento.

2 Daqui por diante, o itálico se refere às palavras específicas dos convidados no âmbito da mesa de discussão.

3 Palavras de Antoni Muntadas, citadas pela Professora Murata durante a palestra.

4 Agamben, Giorgio; O que é um dispositivo ( Título em espanhol: Qué es um dispositivo); Adriana Hidalgo, 2016, Buenos Aires; Pp 20-21.