Perspectivas sobre uma universidade plural

Relato Crítico - "Que universidade queremos?”
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por Marcos Vinícius S. Magalhães

 

No dia 30 de abril de 2021 ocorreu o primeiro ciclo de debates em torno da exposição virtual do projeto “About Academia”. Por meio do canal do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), no YouTube, estiveram reunidos o artista multimídia e autor do projeto Antoni Muntadas, o antropólogo, filósofo e catedrático do IEA-USP, Néstor Garcia Canclini, a educadora e ex-Secretária Estadual de Minas Gerais, Macaé Evaristo e o filósofo, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, bem como o responsável pela moderação da mesa redonda, o professor Martin Grossmann (ECA e IEA-USP). Na ocasião a educadora, ativista sócio-cultural e catedrática do IEA-USP, Eliana Sousa Silva, foi lembrada, embora não tenha sido possível a sua participação no momento do debate. Nesse sentido, esta mesa dedicou-se à discussão em torno da questão “Que universidade queremos?”, transitando entre realidade e utopia e buscou problematizar os aspectos que constituem a academia, sua dualidade entre o público e o privado, o seu lugar no ocidente e ao modo como incide no contexto brasileiro e nas relações que se desdobram da América Latina. As provocações apresentadas por esta mesa nos ajuda a trazer para a centralidade das discussões as relações de poder e saber atreladas à academia, apontando para a necessidade de encontrar caminhos que considerem a diversidade do conhecimento na medida em que questiona a epistemologia característica da instituição universitária a partir de um fulcro social e histórico.

 

Em um primeiro momento, após o início da sessão, Martin Grossmann concedeu a palavra à Guilherme Ary Plonski, diretor do IEA-USP, o qual reconheceu a pertinência da organização do evento, sobretudo quanto ao debate das questões que permeiam o lugar da universidade no momento posto e dos desafios enfrentados nos últimos anos. Assim, após as devidas apresentações, os convidados e a convidada que compuserem a mesa de debate tomaram a palavra, lançando reflexões sobre a temática e sobre os atravessamentos que propôs o projeto “About Academia”.

 

Segundo o artista Antoni Muntadas se torna imprescindível a organização de ciclos de conversas em torno do projeto, tendo em vista os diversos contextos em que ele se instala. Nessa perspectiva, o projeto “About Academia” passou por uma tradução digital que, de acordo com o artista, acabou por contribuir para o seu lugar de conexão com a cultura. Cabe ressaltar que o projeto iniciou-se em Harvard, em Cambridge, trazendo um dos elementos principais para a elaboração do trabalho: as entrevistas com os/as docentes, as quais foram sendo reconhecidas como um exercício dialógico. Contudo, ao compreender uma lacuna na compreensão de se pensar a universidade, originou-se a exposição “About Academia II”, na tentativa de ouvir a voz dos/as estudantes. Nesse percurso, o artista percebeu que, na relação com a voz dos/as docentes, a voz dos/as estudantes se apresentou ainda mais crítica, revelando a trama das relações sociais que compõe o contexto da universidade norte americana. Ao considerar os desdobramentos do trabalho, em 2021, o projeto buscou revisitar as edições anteriores (2011 e 2017) e, o que antes seria exibido presencialmente na Biblioteca Brasiliana do Campus Butantã da USP, acabou sendo traduzido para o meio virtual, dadas as circunstâncias e adaptações impostas pela pandemia.

 

Nessa perspectiva, assim como o contato com a exposição, o diálogo em torno dela poderá contribuir para a sua ativação, mobilizando as aproximações e os distanciamentos com a realidade das universidades latino-americanas daquelas do norte do nosso continente. Para Muntadas, se muitos dos seus projetos não forem ativados pelos diferentes sujeitos então, eles não terão sentido. Mais uma vez, tal como um artefato a ser ativado, o seu trabalho buscou tensionar as relações que se estabelecem com a academia e ao modo como ela constitui e agencia os diversos discursos e narrativas.

 

No mesmo movimento, Néstor Garcia Canclini dialogou sobre a importância de se pensar nas novas formas de institucionalidade, não apenas relacionadas (ou impulsionadas) a partir dos desafios do momento presente, mas também em vista das novas possibilidades de construção da pesquisa e da arte. Nesse sentido, o espaço físico da academia e sua localização, tais como as entrevistas apresentadas pela exposição, são elementos importantes em torno da discussão que se propôs, sobretudo no que tange às perguntas estruturadas pelo artista em seu trabalho. Nesse percurso, cabe pensar no modo como a universidade se instala em meio à cidade e como ela está agora, por exemplo, na ocasião em que suas portas estão fechadas e suas aulas redirecionadas para o interior das casas de alunos/as e professores/as. Para Canclini, a proposição artística de Muntadas, desde a sua primeira versão no contexto dos Estados Unidos, apresentou criticamente perguntas desafiadoras sobre o papel da universidade.

 

O antropólogo cita a Universidade Autônoma Metropolitana do México, cuja localização se dá em meio à zona periférica da cidade e dá o exemplo do modo como a Academia se relaciona com o lugar em que ela está, estabelecendo um nível de “demanda" e produção próxima daquela respectiva realidade social. Assim, ao citar uma pergunta que o artista Antoni Muntadas fez a uma das pessoas entrevistadas, Carol Baker, no ano de 2010, buscou problematizar as condições da produção cultural que também se organizam para além dos muros da universidade. Desse modo, parece existir, em alguns contextos da América Latina, uma extensão do próprio campus da universidade, relacionando-se com o seu exterior e partir de uma relação mais estreita com as diferentes camadas sociais.

Em contrapartida, ocorre outros apontamentos em meio ao projeto proposto pelo artista Muntadas. Nesse caso, Canclini menciona o fato de como as universidades acabam assumindo o lugar de uma empresa, formadora de elites empresariais. Provocações como essas nos fazem refletir sobre qual “produto" vem sendo desenvolvido em meio a essas instituições, cuja relação se dá com as perspectivas visíveis dos rastros sociais. Por fim, Canclini discute a respeito da estrutura da universidade que, sob um olhar para o contexto estadunidense, ressalta as condições que limitam a circulação das pessoas, restringindo sua relação com o próprio sentido da cidade. Ademais, o antropólogo deu margem para novas provocações, na medida em que concebe o espaço que a universidade ocupa tendo em vista as flutuações que emergem no momento presente.

 

Na possibilidade de extensão do diálogo proposto, Macaé Evaristo partilhou de sua experiência como educadora e lançou luz aos problemas enfrentados em meio às universidades brasileiras e à visão ocidentalizada de suas epistemologias. Evaristo trouxe inquietações sobre o lugar das minorias dentro do processo de escolarização, compreendendo o modo como as escolas reforçam os mecanismos de exclusão e questiona, sobretudo, as políticas de acesso de determinados grupos à instituição escolar. Desse modo a sua trajetória, como educadora, foi atravessada por essas questões e sua fala possibilitou traçar tensionamentos sobre a política de ensino no Brasil desde à escolarização básica.

 

Ao trazer uma reflexão sobre o debate proposto, em vista da pergunta “Que universidade queremos?”, Evaristo questionou o conhecimento canônico da universidade e esta, como está posta, acaba por segregar as diferentes epistemologias e formas de constituição do sujeito. Assim como o conhecimento advindo dos povos indígenas, por exemplo, deve-se pensar em uma instituição que considere a pluralidade e reconheça a importância de agregar as diferentes formas de interpretação da realidade, as diferentes comunidades, a diversidade de corpos, histórias e memórias. Segundo a educadora, o próprio conceito de “universidade” deve ser questionado na medida em que busca-se refletir sobre qual conhecimento tem sido gerado em meio a essa instituição. Ademais, torna-se oportuno questionar sobre o que pretende-se universalizar ao impor um único espaço de construção e difusão do conhecimento.

 

Indo ao encontro à fala de Macaé Evaristo, o filósofo e líder indígena Ailton Krenak introduziu sua fala ao refletir sobre a potência da arte, a qual busca pelos seus processos e modos de ativação o questionamento do mundo e das relações que a humanidade estabelece com ele. Krenak nos alerta sobre os riscos da perpetuação das vias únicas de se alcançar um determinado conhecimento, compreendendo o lugar que deveria ocupar a universidade, que é aquele de abrigar a pluralidade e de se comprometer com os territórios em que ela está implantada. Torna-se importante, nessa perspectiva, pensar criticamente no modo de produção das universidades na contemporaneidade que, muitas vezes, acaba por assumir um viés empresarial e utilitarista do próprio capital.

 

Para Krenak, no diálogo com o projeto “About Academia”, há a problematização que põe sob discussão o fato das universidades no século XX terem sido envolvidas pelo sentido das corporações, cujo interesse perpassa por aspectos estritamente econômicos e distantes das necessidades sociais. A partir dessa reflexão, a universidade parece não se dedicar à prática dialógica, que clama pela articulação dos diferentes grupos e pelo reconhecimento da diversidade de um conhecimento organizado a partir das outras fontes e naturezas.

 

Por meio do diálogo entre a composição desta mesa redonda foi possível refletir sobre aspectos que tangem aos estudos sobre a decolonialidade da nossa educação, bem como sua incidência em meio aos processos da educação em arte. Tal como compartilhado por Muntadas e tal como proposto pela versão virtual do projeto, o contraste com o contexto acadêmico e institucional estadunidense contribuiu para uma reflexão que se aproxima e que ao mesmo tempo se distancia da realidade vivenciada pela América Latina. Por meio do projeto da videoinstalação idealizada em São Paulo novas questões e discursos poderão ser colocados em suspensão, na medida em que busca-se projetar um futuro em que os/as estudantes são protagonistas não apenas de suas próprias histórias mas agentes imprescindíveis do processo dialógico das instituições, os/as quais contribuem significativamente para o resgate da memória e da história de diferentes comunidades no interior das universidades.

No tocante à necessidade de se pensar em uma universidade crítica, é imprescindível a desconstrução da ideia consensual em que a diversidade epistemológica é compreendida. Nesse processo, o lugar da diferença não pode ser esvaziado a uma articulação harmoniosa apenas, cuja política atual por vezes acaba por reforçar um viés de igualdade. Contudo, o tensionamento e as disparidades que emergem na compreensão do conhecimento e o seu desenvolvimento em meio às diversas camadas sociais devem ser postos em evidencia, de modo que os mecanismos de poder e saber sejam questionados e abordados em meio à um processo de fala e escuta.

A compreensão da diversidade de sujeitos que participa da cena acadêmica deve ser considerada e incluída em meio à pergunta “Que universidade queremos?”. A criticidade, nessa perspectiva, parece ser evidenciada na medida em que se constrói não somente um processo de conscientização e responsabilidade no modo como compreendemos a construção do conhecimento acadêmico, mas no modo em que se questiona e problematiza a estrutura social em que estamos envolvidos/as.

A universidade, como espaço da pluralidade deve ser posta em evidência e parece ser essa a tônica proposta por esta mesa redonda. No que tange ao contexto da América Latina a relação entre academia e comunidade deve ser incentivada, de modo que o agenciamento de um sujeito plural esteja emaranhado às ações de pesquisa e problematização do conhecimento. A partir da questão central apresentada por este ciclo de debates inicial acerca do projeto de Muntadas, as perspectivas da diferença epistemológica pôde ser evidenciada e aponta, sobretudo, para as hierarquias nas quais o conhecimento científico é estruturado. Sob um processo de reflexão e, buscando dar continuidade ao diálogo estabelecido, um texto desenvolvido a partir de uma versão de 2013, do professor de estudos étnicos da Universidade da Califórnia, Ramón Grossfóguel, poderá nos ajudar a compreender a estrutura do conhecimento no mundo moderno, refletindo sob a política de silenciamento que diferentes povos e comunidades estivaram forçadas dentro do processo de colonização. Tal política, geradora do epistemicídio desses povos, acabou por conduzir o modo como o conhecimento foi sendo estruturado no interior das nossas universidades.

O texto em questão, cujo título se denomina como “A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI”, ajuda a compor a trama do diálogo apresentado por esta mesa redonda, cuja discussão oportuniza a reflexão acerca da diversidade e do acesso à universidade de diferentes sujeitos e comunidades. Contudo vale lembrar que, sob as vias da democracia que se almeja, como bem reforçou a educadora Macaé Evaristo, a máxima dessa política de promoção e manutenção de acesso à academia está longe de ser firmada e, diálogos como esses se fazem cada vez mais necessários na medida em que se reconhece o lugar da academia na América Latina e quanto à compreensão de uma universidade plural.

 

 

 

Referência

 

GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo/ epistêmico e os quatro genocídios/ epistemicídios do longo século XVI. Revista Sociedade e Estado – Volume 31 no 1 Janeiro/Abril 2016. Disponível: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922016000100025>.