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Discourse on the (Curatorial) Method

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CIMAM 2005 Annual Conference
“Museums: Intersections in a Global Scene”


Relato sobre a conferência Discourse on the (Curatorial) Method, de Roger M. Buergel

Método curatorial [discourse on (curatorial) method] Roger Buergel Enquanto Roger Buergel se ajeitava com os microfones, no telão, a imagem fixa de um quadro pendurado numa parede qualquer causava curiosidade. Era um quadro abstrato, com uma forma circular amarela como um sol ou mandala em fundo branco, que parecia copiado destas revistas de “aprenda a pintar” de banca de jornal. O mistério logo se desfaz. É a foto de um quadro de uma parede do setor de bagagens do aeroporto internacional de São Paulo que ele fotografara. Sua mala estava perdida, com parte do material da palestra, assim precisaria improvisar.

Inicia sua fala afirmando que o único método curatorial é mesmo a improvisação. Prossegue apontando que nas conferências e debates da véspera faltou ser citado um elemento. Falou-se de espaços públicos perturbados ou não, relações políticas da arte, museus que não são entidades fixas, sobre a ação de quem trabalha neles lutando sempre para que seja dinâmico. No entanto faltou a expressão “exposição” (exhibition). A exposição tem sua dinâmica específica, é uma transmissão entre um aparato administrativo — não no seu aspecto burocrático, mas na sua lógica — , algo para exibir e público. Aqui há grande destaque à educação. Havendo algo para exibir, é importante trabalhar para manter isso vivo.

A exposição é um meio, e a noção precisa ser ampliada, já que usualmente exposição ocorre em vitrinas, mostrando ser esta a lógica da exposição na vida diária das pessoas. A arte não está sozinha, devemos conceber a exposição em si mesma, focando a qualidade da articulação entre objetos, público e instituição.

No telão aparece agora outra foto, da escadaria de emergência do Copan, edifício modernista de Niemeyer. Uma exibição é importante conforme sua ligação com o local. Esta imagem capta a relação com o que consideramos modernidade, uma certa universalidade. A Documenta precisa ter uma linguagem universal. Os modernistas deram início a uma escala universal, pela forma e cor. A arte é uma constante antropológica e capaz de relacionar diferentes tipos de saberes e locais, e reuni-los. No entanto, os modernistas captaram de modo errôneo a utopia da modernidade, pois esta resultou na imposição de padrões homogêneos. Hoje não precisamos mais de padrões entretanto urge recuperar o trabalho num horizonte planetário. Há algo que nos perturba nesta dimensão que só poderá se resolver se criarmos uma espécie de fórum englobando saberes locais, as práticas mobilizadas por estes saberes. Exposições como a Documenta são capazes de justapor pessoas e trabalhos de lugares diferentes, com experiências diferentes num só local. A arte até pode ter “raízes locais”, mas trabalha de um modo transformador. Cada local de onde a arte procede carrega informações demais, as publicações têm aumentado, muita coisa está sendo mediada por estas informações. Temos porém, que pensar na arte com sua capacidade de se comunicar com outras artes, com possíveis públicos que se relacionam com as obras sem fixá-las necessariamente como conhecimento. Assim, podemos acabar com uma retórica das identidades. O “artista iraniano” com as imagens de mulheres, o “australiano” com fotos, o “pintor alemão”. Faz-se necessário ir além do reino das identidades. A exposição deve animar o espaço para que o público experimente novas implicações da subjetividade. A modernidade acabou, ao mesmo tempo desafiamos o terreno comum de criar algo, visando um horizonte para viver. Muitos artistas contemporâneos tentam voltar ao moderno, só que enquanto arqueologia.

Outras imagens aparecem no telão, um conjunto de fotos referentes ao afresco de Lorenzetti do século XIV, em Siena, O bom e o mau governo, projeção de como o mundo da época deveria ser. Um detalhe mostra a alegoria da justiça levando cidadãos que compartilham o Estado governando-os acima deles. As imagens de grupos de pessoas mostram que o poder corre pelo tecido social, não depende de um centro, não está em um centro.

Outro grupo de fotografias retrata jovens marroquinos encostados na entrada da prefeitura de Amsterdam observando uma manifestação islâmica na qual chegou a se queimar um bandeira dos EUA. É um grupo fragmentado, entre a Prefeitura, que está fechada e a manifestação: não são nem de um lado, nem de outro. Seria essa a posição que a arte ocupa?

Algo aqui é importante, a noção de “vida nua” (bare life), apresentada pelo filósofo italiano Agamben, que mostra um poder do soberano, do Estado, de tirar quase tudo de um indivíduo até sobrar quase nada, uma vida nua, um corpo inteiramente disponível. Haveria ligação entre esta precariedade da vida humana e a capacidade de se ultrapassar pela maneira como vivemos?

Outro conjunto de fotos mostra aspectos de uma famosa mostra na Argentina, Tucumán arde., realizada em final de 1968 em Rosário, Buenos Ayres. O grupo de artistas que a realizou demonstra aqui que uma exposição pode funcionar como um meio, ligado a um público e uma agenda própria. Procurou exibir a vida como possibilidade de ultrapassar as condições vigentes. Tucumán é uma região pobre da Argentina, importante produtora de açúcar nos anos 1950, mas contando também com uma estrutura rural de pequenas propriedades. Nos anos 1960, um projeto de “modernização” empreendido pelo governo autoritário do General Ongania (1966-1970) , resultou no fechamento de usinas de açúcar e fim de pequenas propriedades. Artistas se mobilizaram, aliados a sindicatos, em torno de ações destinadas a fazer contra-propaganda da posição oficial do governo.

Tucumán Arde tinha uma coreografia precisa: primeiro fizeram contato com líderes locais, pesquisaram, fizeram um balanço da situação com as pessoas impactadas. A seguir fotografaram a vida no campo, as plantações de açúcar, as usinas abandonadas. Por fim realizaram exposições do material na sede dos sindicatos em Rosário e Buenos Aires. Em Buenos Aires a exposição foi fechada pelas autoridades depois de poucas horas.

Os artistas aqui realizaram pesquisas sociológicas, coletaram documentos, entrevistaram, buscando informar na contra-corrente do governo. Conectaram pessoas no local de onde viviam para criar um terreno comum onde as pessoas fossem capazes de agir, envolvendo o publico ativamente. Não há dicotomia entre sociologia política e a arte. A sociologia não é exterior à arte.

Quanto à exibição, ela demonstra que se pode criar uma tarefa de reunir pessoas, de aglutinar discussões. A própria maneira de exibir as fotos e os documentos criou espaços correspondentes aos espaços cotidianos dos trabalhadores das usinas de açúcar, com seus corredores estreitos ladeados por sacos do produto. A comparação de uma fotografia da entrada da mostra com a foto de um corredor formado por sacos de açúcar mostra o que foi aqui chamado de “tensão fenomenológica” da exposição.

A seguir foi apresentado um conjunto de fotos da primeira Documenta. Esta mostra inaugurada em Kassel, em 1955, foi uma reação ao trauma da guerra vivida pela população alemã chocada com a revelação dos crimes do Estado e com a destruição de suas cidades. A primeira foto mostra a entrada da exibição com as paredes forradas de retratos de artistas famosos, tentando mostrá-los em sua humanidade comum, além de tentar recuperar imagens de rostos que parecia faltar na vida cotidiana das pessoas do pós-guerra. Ruínas de bairros da cidade foram cobertas por flores. A visitação somou em torno de 130 mil pessoas.

Outras fotos mostram outros aspectos da mostra. Quadros importantes da arte de vanguarda foram emprestados por museus famosos e eram colocados em paredes precárias forradas de plásticos ou cartolina, muitas vezes interferindo com a percepção do conjunto da obra. A arte colocada sobre materiais baratos, simples, com plásticos pretos separando as salas, remetia á idéia de reconstrução. A disposição das obras não se preocupou em induzir uma leitura. O ponto crucial do design da exposição é a relação com o espectador naquele contexto. Devemos reconhecer este envolvimento com as subjetividades para assim construirmos algo.

Sempre haverá um hiato entre arte e espectador, para que este olhe de modo afirmativo não pode haver nas exposições uma imposição a este olhar do espectador.

A penúltima foto mostra dois meninos sentados em um banco de frente para a câmera, ambos com os rostos cobertos com seus blusões. São migrantes da segunda geração morando na Áustria. Eles não querem ser vistos pelo modo que sempre foram representados. O fotógrafo não caiu na armadilha de representar crianças como vítimas ou com alguma imagem triunfalista. Ele apenas suportou o gesto de protesto dos adolescentes, gesto que qualquer adolescente poderia fazer nesta situação. Nós como espectadores da arte devemos levar este gesto para além dele.

A última foto desta conferência improvisada mostra duas meninas brancas fantasiadas de princesas encarando a câmera. Solicitam um olhar afirmativo, precisam da foto para confirmar que existem. Uma das meninas é a filha de Roger. Não há experiência estética sem subjetividade. A arte também olha para si. A exibição é um meio que mobiliza o sujeito.

 

Debate:
Platéia: - Você mostrou um público impactado pela guerra, um público talvez menos sofisticado do que o público de hoje. Mas acho que o que ainda conta é a qualidade da arte ali exposta, mesmo sobreposta a simples plásticos. Moro na Argentina e me lembro de Tucumán Arde. Os artistas queriam participar politicamente e foram reprimidos por ditaduras. Hoje as pessoas estão conhecendo isso. Mas os historiadores da arte não se deram conta de que a ditadura levou à idéia de combater pela violência e trouxe como conseqüência 30 mil mortes. - Muito pertinentes foram as colocações sobre o fenômeno da exposição, não apenas nos museus. O que caracterizaria uma exposição de museu e estas formas diferentes de exposição? Qual o nível de conhecimento para ser fornecido como mediação ao público, por exemplo, um diagrama de Tucumán Arde, como parte da obra, está em espanhol, nem todo publico entenderá, seria necessário traduzi-lo?

Roger Buergel: Em relação à ultima questão: não é necessário mostrar tudo e sim criar um espaço de ressonância do que o público pode ver, levando em conta o aspecto psíquico do diagrama citado. Importante seria transmitir informação mostrando como esta informação é formatada, tentar entender algo com esta aparência específica. Isso motiva o espectador a entrar neste universo. Cada obra, cada peça deve criar uma impressão. As pessoas assim se identificam com esta produção e vão começar a buscar conhecimento por si mesmos. Quanto às exibições em museus, penso que os museus deveriam cuidar de seus acervos e apenas montar exposições que tivessem algum relacionamento com suas coleções e seu patrimônio. Isso exige pesquisa e educação. Esta é a diferença, uma simples exposição em um museu, sem relação com o acervo, é algo muito frágil.

(por Beatriz Scigliano Carneiro)