Você está aqui: Página Inicial / Eventos / Encontros / Encontro Regional de Acessibilidade em Museus / Relatos / Mesa “Formação de público de pessoas com deficiência em museus”

Mesa “Formação de público de pessoas com deficiência em museus”

Relato por Patricia Miyuki Otani

Palestrantes:

· Joana Zats Mussi, formada em ciências sociais e jornalismo: “Aprender para ensinar. Programa Igual Diferente” – MAM-SP

· Valquíria Prates, produtora cultural e educadora, coordena projetos inclusivos na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência: “Programa ABC Visual – Curso de História de Arte para Cegos

· Amanda Tojal, museóloga e educadora, doutora pela Escola de Comunicação e Artes da USP – “PEPE – Programa Educativo para públicos Especiais”- Pinacoteca do Estado de São Paulo

 

Mediadora: Mara Gabrilli – psicóloga e publictária, fundadora do Instituto Mara Gabrilli, atua na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e mobilidade reduzida da Cidade de São Paulo (SMPED)

 

Relatora: Patrícia Miyuki Otani – graduada em Terapia Ocupacional pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Compõe a equipe de Atendimento Especializado ao Cliente da Fundação Dorina Nowill para Cegos, e faz parte do grupo que organiza as Atividades sócio-educativas.

 

Relato:

            As três palestrantes desta mesa apresentaram propostas inovadoras sobre o tema, “Formação de público de pessoas com deficiência em museus”, demonstrando que não existem respostas prontas, mas sim uma disposição para construir formas diferenciadas de atender necessidades tão diversificadas: Joana Zats Mussi, representando o MAM-SP, apresentou a palestra “Aprender para ensinar. Programa Igual Diferente”, cuja proposta consiste em formar monitores com deficiência auditiva para atender as especificidades de um conhecimento falado através da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), para as exposições de arte contemporânea; Valquíria Prates, do “Programa ABC Visual – Curso de História de Arte para Cegos”, demonstrou através da experiência de oferecer esse curso, que as pessoas com deficiência visual, envoltas num mundo de informações visuais, também são capazes de desenvolver a sensibilidade para aprender a linguagem artística e as representações que inicialmente se apresentam através da percepção visual; Amanda Tojal, que desenvolve seu trabalho na  Pinacoteca do Estado, apresentou a palestra sobre o PEPE: “Programa Educativo para Públicos Especiais” e as propostas para atender o público de pessoas com deficiência.

            Esta mesa teve como mediadora Mara Gabrilli, que apontou a importância de se compreender a diversidade humana para conseguir pensar tanto nos problemas estruturais de acessibilidade, como também nos diferentes papéis assumidos por cada um nesse processo. Além disso, enfatizou a importância da arte e da cultura como formas de participação das pessoas com deficiência na sociedade em seu processo de inclusão social.

            Ao acompanhar ações de inclusão em museus desde 2001, organizados pelo Atendimento Especializado da Fundação Dorina Nowill para Cegos, foi possível constatar a evolução das propostas e sua profissionalização e especialização por parte dos interessados. Mais do que cumprir leis ou normas técnicas, é possível observar que o interesse pelo assunto parte de um compromisso com o outro. E quem é esse outro?

            Se não é possível negar que alguns grupos sociais têm necessidades específicas, a prática mostra que dentro desse grupo também existem necessidades diferenciadas, como é o caso da pessoa com deficiência visual, auditiva, intelectual ou motora, entre outros.

            Para o público com deficiência visual, ter ou não memória visual ou baixa visão em seus diferentes graus, constitui uma grande diferença sobre as formas de construir representações mentais, como demonstra o trabalho apresentado por Joana Zatz do Programa ABC Visual. Por outro lado, também permite observar a surpresa da descoberta de que, também uma generalização que afirma idéias como “toda pessoa com deficiência visual congênita é”, é desmistificada, e mais uma vez partimos para o conceito de singularidade. Grupos passam a ser um grupo de pessoas, que possuem um nome e uma história de vida muita rica, que influencia a forma como essa pessoa se relaciona com o mundo.

            Este trabalho ajuda a ilustrar uma das principais dificuldades de entendimento para pessoas que nunca trabalharam com o público que tem deficiência visual. Quando recebemos, no Atendimento Especializado ao Cliente da Fundação Dorina Nowill para Cegos a pergunta sobre o que fazer em termos de acessibilidade para este público e respondemos que existem, especificidades bem diferenciadas, como deficiência congênita ou adquirida e baixa visão em graus muito variados, ficam inicialmente um pouco perdidos. Além disso, vale lembrar que sempre, as experiências dentro da história de vida é que vão compor a vivência da pessoa naquele momento. Cabe, no entanto, separar o que são normas técnicas de acessibilidade arquitetônica, que seguem um padrão estabelecido de acordo com os parâmetros do acesso universal, do que aqui se aponta como especificidades diferenciadas ao se falar do acesso às obras de arte propriamente ditas.

            Numa de suas falas, Amanda Tojal refere que os museus, em geral, são mais contemplativos do que interativos. Acrescentaria a essa fala, uma experiência estéril no que se refere ao uso dos sentidos além da percepção visual. Duarte Jr[1] (2001) nos fala desse estado de anestesia a que os grandes centros urbanos nos remetem, onde estamos envoltos num mundo de estimulação visual e nossos outros sentidos são deixados num estado quase de torpor. Nesse universo, é visível a preocupação com a deficiência visual, condição que implica propostas que exigem outra forma de conceber o acesso às obras. Num mundo do estímulo visual e da informação visual, este público chama a atenção dos responsáveis pela acessibilidade ao construir suas propostas. Mais do que isso, no entanto, poderíamos ter em mente a idéia de acesso universal como foi colocado por diversos palestrantes, e que também as outras pessoas têm uma necessidade de tocar, sentir, ouvir, cheirar e ver a obra, podendo dessa forma, ter outra percepção dessa experiência de apreciar a arte. Ressaltou-se aqui os museus de arte por serem o foco das palestras, mas podemos pensar nos outros tipos de museus, como os históricos, de zoologia, botânica, entre outros.

            O discurso corrente que muitas vezes as crianças ouvem constantemente, é o “não toque”, “você tem olhos nos dedos?” E ao longo dos anos, ouvindo esse discurso, acabam por anestesiar as mãos e reduzindo o contato com a obra ao olhar.

            Tanto para a pessoa com deficiência visual como para a pessoa com deficiência auditiva, falou-se de línguas e linguagens. Para a pessoa com deficiência visual, ficou evidenciado pelos trabalhos de Valquíria Prates e Amanda Tojal, como constrói sua relação com as palavras e expressões língua e de que forma apreende uma descrição de algo que inicialmente se apresenta somente como uma informação visual. E dentro dos espaços como os museus de arte ou a partir de um curso de história da arte, de que forma se apropria da linguagem artística, podendo não somente compreender, mas apreender a obra, e passar, através da língua falada a experiência vivida e da linguagem artística a uma produção particular.

            Para a pessoa com deficiência auditiva, ficou exposta pela Joana Zatz essa língua viva que se permite estar sempre em construção. Em diversos momentos foi possível observar, através do intérprete de LIBRAS da palestra, como algumas palavras, transformadas em gestos ganham uma dimensão no espaço de forma viva, como uma característica inerente à própria língua.

            O “Projeto Aprender para Ensinar” do MAM deixa claro a necessidade de se adequar o discurso à língua, no caso a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Pensando a acessibilidade como um processo que engloba o universal, é visível os esforços para adequar as propostas para públicos diversos e não o contrário, evidenciando que o processo de inclusão implica sempre uma relação na qual ambos os lados devem se complementar. Foi-se o tempo das monitorias padronizadas e monótonas e podemos falar de uma inauguração do entendimento de que para a formação de públicos, não só com deficiência nos museus, é necessário sair do estéril e da anestesia padronizada.

            “Aprender para Ensinar”, constitui uma forma surpreendente de criar propostas nas quais o outro é valorizado como sujeito de ação e não somente agente passivo. Quando existe a oportunidade de aprender com a proposta de ensinar, ou seja, de passar um conhecimento adquirido para outras pessoas, ela passa a se relacionar com o aprendizado de outra forma, já que aprender é um compromisso consigo mesmo, mas ensinar envolve um compromisso com o outro. Além disso, no caso da arte contemporânea, podemos falar de um aprendizado e de um ensino que estão em constante fluxo de atualização.

            O museu passa a não ser mais um local que não me pertence, para se tornar um local privilegiado de acesso à produção cultural.

            Na experiência de organizar e acompanhar grupos de pessoas com deficiência visual em museus, galerias de arte, exposições, centros culturais e outros espaços públicos, é comum ouvir no discurso que a maioria nunca foi ao museu antes da perda visual, sendo que alguns relatam somente experiências em situação escolar.

            O espaço, segundo Certau[2] (2007), é um “espaço vivido”, ou seja, a minha experiência vivida é que cria a relação que estabeleço com os lugares da cidade, muito mais do que uma descrição pautada na experiência do outro. Risco que corremos, quando conhecemos um local, por exemplo, somente através de recursos como a televisão ou a descrição do outro. Quando a pessoa com deficiência pode vivenciar os espaços, é o momento no qual o discurso muda, e essa pessoa pode falar de uma experiência pessoal como um “espaço vivido”. Espaço, aqui, não somente entendido na sua concepção física, mas como lugar que a pessoa se apropria e pode ocupar como uma vivência.

            Ainda chama a atenção a necessidade de uma monitoria específica e pré-agendada. Futuramente se tivermos incorporado que a acessibilidade implica num comprometimento de todos, será mais simples dizer às pessoas, “Pode ir que o local é acessível, e será recebido por qualquer pessoa que estiver lá”. Nesse momento, não será necessário perguntar previamente se o local possui uma proposta para atender públicos específicos, sem esquecer que existem especificidades.

            Nas palavras de Viviane Sarraf, “a inclusão não é o que pode, mas o que quer”, significa que futuramente poderemos vislumbrar a possibilidade do conhecimento total de um acervo, e não somente o que pode ser tocado, o que pôde ser adaptado, o que pode ser acessado ou o que foi escolhido por outro alguém como obra interessante de ser apresentada.



[1] DUARTE Jr., João Francisco. O sentido dos sentidos. Educação (do) sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001

[2] CERTAU, M. A Invenção do Cotidiano – Artes do Fazer. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2007.