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EDITORIAL da 4


A Número chega ao Quatro e completa o primeiro ano de existência mantendo a premissa de eleger um mote temático a cada edição. Desta vez, decidimos remexer no que chamamos de Os lugares (e o trânsito) da arte. A gama de questões contida em tal campo de investigação é vasta, e vimos exatamente na diversidade e no potencial reflexivo despertado por algumas destas questões a oportunidade de dar seguimento ao fluxo de idéias que vêm sendo discutidas na revista.

Pela amplitude de abordagens que o tema permite, é difícil a demarcação de contornos ou limites definidos para a escolha de tópicos a serem analisados. Por isso, os lugares da arte são pensados aqui sob diversos enfoques, não apenas na acepção pura – como espaços expositivos ou de concepção da obra –, mas também em desdobramentos mais e menos vinculados à dinâmica do circuito das artes visuais.

Sobre os ateliês, Fernando Oliva apresenta reportagem que revela uma dissolução ou alargamento da leitura convencional dos centros por excelência da criação artística. O escopo se abre para o alcance social da arte com artigo de Thaís Rivitti a respeito dos mecanismos que regem a dicotomia entre cultura e entretenimento, numa leitura de aproximações e contrapontos de manifestações distintas como uma exposição de arte e shows de música dos grupos Calypso e Calcinha Preta, chamados “populares”.

Juliana Monachesi avalia as possibilidades da Internet como suporte ou instrumento para propostas de cunho artístico, comentando trabalhos de web art que logram articular as polaridades contidas nesse binômio. O professor da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) Luiz Renato Martins traça um panorama a um só tempo lúcido e desencantado do meio de artes plásticas, em entrevista a Cauê Calves, com participação de Taísa Palhares e Rivitti. A propósito, o termo “arte”, segundo Martins, é impróprio para designar as “atividades díspares” que se apresentam, por exemplo, em bienais e grandes exposições internacionais. 

A Número pôde, mais uma vez, contar com a generosa contribuição de colaboradores externos. A arquiteta atuante na área de museografia Renata Motta comenta o fenômeno que combina a espetacularização dos museus com lacuna de investimentos em política institucional. O também arquiteto e urbanista Guilherme Wisnik lança um olhar crítico sobre a efervescência de centros culturais ligados a empresas – especialmente bancos – e os reflexos, na cultura, da disputa pelo capital (também) simbólico que a arte proporciona.

A professora do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina Regina Melim comparece com texto em que, muito oportunamente, faz um balanço e uma atualização dos conceitos de nonsite – formulado pelo artista norte-americano Robert Smithson – e de site-specific, tão expandido em relação aos termos como foi teorizado nos anos 1960. O crítico e curador paranaense Paulo Reis desenvolve um viés diacrônico para associar parte das poéticas artísticas emergentes nos anos 1990 a um movimento de apropriação produtiva das discussões políticas e artísticas da década anterior.

Registra-se, ainda, a colaboração de José Resende. O artista apresenta ensaio visual que retoma livremente questões sobre um impasse em torno da (im)possibilidade de inserção da arte nos espaços social e urbano, formuladas por ele em artigo originalmente publicado na extinta revista Malasartes (nº 3, 1976). Por fim, estas páginas cumprem a função de “lugar” ou suporte da arte, com projeto gráfico que é, também, uma intervenção de artista. Ou melhor, de uma dupla de artistas, Angela Detanico e Rafael Lain. 

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