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BIENAL 2008: entre monstruosidades e monstros

Ruy Filho (blog Antro Particular, 11 de dezembro de 2008)


Texto publicado originalmente no blog Antro Particular: http://antroparticular.blogspot.com/

A primeira e espontânea reação, ao entrar no pavilhão da Bienal, fora o espanto. Depois, o fugir do sorriso ao ser destratado por uma funcionária explicitamente condicionada pelo seu mau-humor em estar ali. E a fila para ser revistado, qual burlei, após erguer os braços e esperar a efetivação da ação. Não veio, fui eu, então, para além da catraca assim mesmo.

Parto daqui minha conclusão sobre a mostra “Em Vivo Contato”, de curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. Da percepção de funcionários estressados, desatentos, do controle ao acesso, da desconfiança elementar de serem os visitantes potencialmente vândalos por natureza.

E aí, os primeiros engodos e engulhos. A perspectiva do ataque à exposição por qualquer um reflete a preocupação da instituição - e, por conseguinte, dos que a representavam nesse momento –, de que a ação promovida por um grupo de pichadores, durante a abertura do evento, poderia ser revitalizada em ações similares por tantos outros insatisfeitos. O sentimento revoltoso em si expunha discordar da curadoria que optara em deixar vazio o segundo andar como protesto conceitual à desorganização e desestruturação administrativo-financeira da Fundação.

Uma questão, portanto: se não são de concordância os preceitos oferecidos para o desenvolvimento do trabalho, por que participar?

Discutir e avaliar as condições reais são fundamentais para chegarmos ao mais próximo do que pode vir a ser alternativa para fugir da crise. Por esse ângulo, nada mais desafiador do que o pertencer ao universo (no caso, o construir de um pensamento sobre a própria crise) e dele extrair proposições amplas cujo foco final seja o apontamento de respostas viáveis e interessantes para todos os lados (fundação, investidores, curadores, intelectuais, artistas e público). Entendo, portanto, a motivação maior de Mesquita e Cohen em se lançar ao desafio de ressuscitar um cadáver em decomposição. E veio daí meus melhores votos ao anúncio do projeto de ser a Bienal de São Paulo 2008 uma bienal do vazio, na perspectiva de encontrar um valoroso trabalho que desse conta de conter o discurso original e as críticas soltas ao vento.

Mas nada é mais próximo ao vazio que o próprio vento...

Aos 23 anos, Caroline da Motta, uma dentre os quarenta responsáveis pela pichação, fora condenada por igualmente se opor e agir, sendo, ao fim, levada prisioneira por destruição de patrimônio cultural. Caroline permanece encarcerada, aguardando o julgamento que poderá levá-la a residir numa penitenciária feminina, até a próxima Bienal, ao menos.

As perguntas que permanecem são: não deveriam, por analogismo óbvio, os curadores terem compreendido que, numa reação agressiva, havia mais do que o vandalismo descontente, uma vez que optar por deixar a Bienal vazia de artistas fora imensamente mais agressivo aos próprios princípios do evento? Como pode um transgressor não compreender uma transgressão, e silenciar-se àquilo que lhe espelha? E, depois de ocorrido o manifesto, por que repintar as paredes de branco? Narcisismo retórico? Se a proposta curatorial era demonstrar no vazio de um andar inteiro a insolubilidade dos problemas, não estaria a pichação evidenciando o quanto a ausência de obras (conseqüente à falta de responsabilidade na gestão da fundação) reflete desesperar artista e público?

A Bienal e suas faces por opção, Ivo e Ana Paula, não trancafiaram uma mera pichadora. Ao contrário. Expulsaram de um evento, cujo intuito primeiro era constituir paradigmas em relação aos valores estabelecidos, qualquer possibilidade de discordância. O tom ditatorial, fascista, traz o fedor do cadáver apodrecido e desvela a dogmatização do discurso artístico e do pensamento que tomara nossa cultura, contrariando princípios elementares numa democracia.

O primeiro vazio, portanto, em “Em Vivo Contato”, é da sua função em dialogar com controvérsias. E, numa tentativa mais orgânica em dar coerência aos fatos, então, que a justiça, por analogia e contexto, igualmente aprisione os curadores. Se Caroline é a ativista, a mão segura com o spray, Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen deveriam ser intimados como mentores e estimuladores indiretos do tal crime.

Mas não acho que os curadores estejam tão a fim de levar em frente seus próprios argumentos. Não longe dos confortos de seus quartos e edredons. Criar conceitos é fácil. Difícil é se manter coerente a eles!

Sigamos...

Dentre variações de apelidos, a 28ª edição fora nomeada pela curadoria por Bienal Pobre, justificando aí a ausência de artísticas, frente à impossibilidade financeira em reunir uma vasta coleção.

Contudo, não me parece que mais de 40 artistas expõe ao evento ausência de participações. Pelo contrário, se pensado que muitos exibiram mais de um trabalho, levando-nos a somatória de cerca de duzentas obras. Tampouco os quase dez milhões anunciados necessários para a realização do evento, desta vez em uma redução do período costumeiro, apenas 42 dias.

Dois são os aspectos: a medição dos dados perante mostras passadas e a qualidade do apresentado com os recursos adquiridos via lei de incentivo fiscal.

Mensurar, agora, as condições da Bienal, tendo por parâmetro suas edições anteriores, funcionaria se, por qualquer motivo, ela fosse revelada aos curadores à posteriori da apresentação de seu projeto. Não é o caso, sobremaneira. Era de claro e amplo conhecimento de ambos a ausência de recursos e o exíguo tempo para execução. E foi em cima desses aspectos que as justificativas resenharam páginas de jornal. Argumentar isso é dar irresponsabilidade pela baixa qualidade do que fora apresentado. Uma vez que se sabia quanto e como seria possível ser realizada a Bienal, alternativas deveriam ser costuradas para construir eficiência entre discurso, conceito e crítica. Dessa maneira, um andar vazio (que me fascinava desde as primeiras entrevistas), justificar-se-ia na excelência do restante.

O exposto esteve, contudo, longe de qualquer excelência, voltando mais ao apelo midiático do que propriamente à elaboração de pensamentos complexos. No rugir de artistas, elevou-se o número de participantes, desconstruindo as proposições iniciais que originavam o conceito escolhido. Sem ele, portanto, sem o pilar de sustentação, a Bienal ganhou aspectos mediocrizantes destinados a uma voluptuosa vontade de exposição de seus interlocutores. Nunca se falou tanto sobre a Bienal. Nunca se falou tão pouco sobre as obras e artistas. As estampas nos magazines não identificavam a arte, mas Ivo e Ana Paula. Satisfatório ao currículo, o evento se prostrou a existência dos curadores da maneira mais leviana, mais promíscua, quando utilizaram a mostra por alavanca exibicionista sem muito a oferecer além de si mesmos. Permanecendo nos noticiários, a tal Bienal do Vazio, abandonada de instigações, condicionada aos discursos, a espetacularização das dificuldades, a produtificação e massificação da arte em estratégias de popularização.

Argumenta seu sucesso, Ivo Mesquita, por haverem transitado pelo pavilhão cerca de 200 mil pessoas, comparando-a a Bienal de Veneza, cuja circulação fora por volta de 370. Ora, a província italiana é habitada por cerca de 530 mil pessoas, com cerca de 13 milhões de visitantes ao ano. São Paulo, capital, ultrapassara os 11 milhões de moradores, fora os trabalhadores nas cidades circunscritas, turistas esporádicos e turistas de eventos específicos, que, segundo recentes pesquisas governamentais, elevam a freqüência à casa dos 20. Proporcionalmente, Veneza atingira 2,75% (pagantes) de suas possibilidades, enquanto aqui, patinamos em 1% (gratuito). Não é necessário ser um gênio da matemática para perceber que a comparação feita por Ivo é, no mínimo, esdrúxula e desesperada, e que, vistos mais proximamente os dados, a Bienal, como evento isolado e confrontado aos similares em outros países (para nos atermos, assim, aos mesmos princípios), fora simplesmente um fracasso.

Quem estivera na Bienal confrontara alguns aspectos estarrecedores. Falta de trabalhos condizentes com os argumentos curatoriais, ausência de obras significativas, equivocada utilização espacial para exposição dos trabalhos, inconsistência na programação dos eventos, apelação ao gosto populista. A Bienal menos se parecia como um encontro estético e discursivo entre artes e artistas, a partir de uma percepção precedente, e mais a recriação do Mundo Mix, já em sua fase decadente. Supostos ‘moderninhos’ transitando pelo bar com suas cervejas geladas, davam o ar underground ao evento que, quase nada, tinha de alternativo ou provocativo ou relevante a oferecer.

O térreo destinado a ‘encontros’. O primeiro andar, a poucos trabalhos e uma coleção de vídeo-arte, onde o público era convidado a assistir confundido pelos sons externos, por vezes mais propícios a raves suburbanas e guetos juvenis. Como entender uma obra elaborada em delicadeza e sutileza sendo circundado insistentemente por ruídos de toda ordem e estética? No segundo, o escolhido para abrigar a ausência, seguranças convertiam animados visitantes prestes a se jogar em um escorregador ao que se entendia por comportamento correto: sem manifestações, sem pichações, sem qualquer atitude suspeita, portanto... No terceiro, a maior quantidade de obras e a explicitação de ser a proposta de Ana Paula Cohen (abolir separações entre as obras e determinar a todas o mesmo ambiente) um enorme equívoco. Sem respiro, muitas se acumulavam, contaminando-se mutuamente, impossibilitando as leituras particulares, possíveis, apenas, através de enorme esforço.

A transformação dos vídeos de Marina Abramovic em vitrinismo de shopping, a baixa qualidade argumentativa dos trabalhos apresentados, a estúpida descaracterização dos vídeos-arte, a incoerência e inconsistência conceitual frente ao proposto, a patética biblioteca para consulta (mais propícia à limitação do corredor de estação de metrô), a inacreditável compreensão de serem aulas de dança e expressão corporal promovidas por Ivaldo Bertazo, manifestações artísticas, o apelo estúpido em construir uma programação pautada para o entretenimento participativo, realmente conseguiu deixar na história a última Bienal. Não como o instante manifesto qual se pronunciara, mas por sua capacidade em desvalorizar e anular o artista em nome de um bom discurso, subjugar o interesse do público restringindo-o ao festivo e caricato, narcisismo intelectual e absurdos contextuais.

Não saí satisfeito da 27ª Bienal, de Lisette Lagnado. Mas, ao menos, a curadora, que respeito como poucas, fizera-me retornar três vezes ao pavilhão para reconhecer minhas crises, para compreender o outro, e para saber um pouco mais sobre minha época, em visitas que me tomaram horas a fio de silencioso encontro, descoberta e discordância.

Em 2008, a única capacidade concreta de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen fora de entediar. Só que estamos no Brasil, e nisso, a novela das oito consegue ser mais eficiente, sem que precise eu igualmente abrir mão do meu edredom. Deixemos claro: essa Bienal não existiu. Fomos invadidos por monstros extraterrestres que atacaram a cidade e quase dizimaram a população paulistana, levando ao cancelamento da mostra. Será melhor para a História assim.